"Carrie & Lowell"

Ano: 2015
Selo: Asthmatic Kitty
Gênero: Indie, Folk
Para quem gosta de: Elliott Smith, Nick Drake
Ouça: Should Have Known Better, Death With Dignity
Nota: 9.5

Disco: “Carrie & Lowell”, Sufjan Stevens

Sufjan Stevens sempre me pareceu um grande contador de histórias. Por trás do inofensivo dedilhado de violão lançado pelo artista de Michigan, uma tapeçaria imensa de personagens, recortes fictícios, acontecimentos políticos que marcaram a história norte-americana ou mesmo contos transformados em música doces e envolventes. Basta voltar os ouvidos para o clássico Illinois, de 2005, onde a vida do palhaço/assassino serial John Wayne Gacy, Jr. foi explorada com sensibilidade única, constante temática na obra do músico, um habilidoso artesão no controle dos sentimentos, capaz de converter detalhes (e temas) tão particulares, em peças facilmente absorvidas por qualquer ouvinte.

Mas e as histórias do próprio Stevens, suas angústias, medos e desilusões: onde elas estão? Ainda que tenha atravessado os últimos 15 anos em meio a delicadas confissões românticas, tormentos e temas cotidianos, poucas vezes o universo particular do cantor estadunidense foi apresentado com tamanha clareza e sensibilidade quanto em Carrie & Lowell (2015, Asthmatic Kitty). Sétimo trabalho de inéditas do artista, o álbum vai além de um regresso aos planos acústicos que lançaram o instrumentista no começo dos anos 2000, revelando um mergulho soturno na conturbada estrutura familiar do cantor – a base temática que se espalha em cada faixa do registro.

Da imagem desgastada que estampa a capa do álbum – o casal (real) formado por Carrie e Lowell, mãe e padrastro de Stevens – passando pelos versos, sussurros e histórias entristecidas da obra, todas as peças do projeto se juntam para contar a história e, de certa forma, homenagear a mãe do cantor, Carrie, morta em 2012 depois de passar por meses de tratamento contra um câncer no estômago. Esquizofrênica, depressiva e alcoólatra, a “protagonista” deixou o filho e o ex-marido em meados dos anos 1970, voltando a revê-los anos mais tarde, quando se casou com Lowell, acolhendo o pequeno Stevens durante cinco férias de verão. Um história simples, porém, explorada de forma atenta, a matéria-prima para o retrato sorumbático que começa (pelo fim) em Death with Dignity e se estende até Blue Bucket Of Gold.

Ainda que esteja aberta a diferentes interpretações, a história que sustenta toda a estrutura de Carrie & Lowell é apresentada de forma clara, esquiva de possíveis bloqueios líricos. Trata-se de uma jogo de versos confessionais, puramente honestos, como o diário fragmentado de um indivíduo – a criança que habita a mente de Stevens – tentando encarar o mundo conturbado dos adultos em busca da própria aceitação. Como fica explícito nos primeiros minutos do álbum, em Death With Dignity – os últimos instantes de vida de Carrol -, com a presente obra, Stevens foge de uma estrutura linear, brincando com um roteiro quase cinematográfico instável; um misto de passado e presente tão próximo do cantor, quanto do próprio ouvinte, instantaneamente confortado nos versos descritivos da obra.

O que eu fiz para merecer isso?”, pergunta o jovem cantor/personagem em Drawn To The Blood, um dos pequenos fragmentos da temática da “aceitação” que preenchem o disco. De forma melancólica, por vezes sufocante, Stevens preenche o trabalho com um acervo poético que logo se mostra íntimo do espectador. Não é preciso ter perdido um ente querido próximo para mergulhar no universo autoral do trabalho. Diferente da complexidade explícita nos últimos discos do compositor, Stevens assume no encaixe dinâmico das palavras uma obra honesta, capaz de dialogar com os mais variados públicos. Como a capa “simplista” que ocupa a capa do disco, todos os personagens da história (real) do álbum são facilmente adaptados ao cotidiano do ouvinte, como o folhear das páginas em um antigo álbum de família.

Não por acaso Stevens se esquiva do coro de vozes e todo o aparato eletrônico de The Age of Adz (2010) para “orquestrar” os arranjos do presente disco. Ao fugir do exagero musicalmente aplicado no álbum anterior, o músico garante uma obra intimista, forçando o ouvinte a se concentrar no manuseio do versos. Todavia, erra quem interpreta Carrie & Lowell como uma obra puramente lírica, orientada apenas por palavras sussurradas. Perceba o desenho leve que se forma nas bases sintetizadas de Fourth Of July e Should Have Known Better, arranjos (e falsetes) montados para abraçar o ouvinte – reflexo de anos de experimento do músico.

Detalhado em uma estrutura de recolhimento, oposto ao toque expansivo de Illinois e The Age of Adz, Carrie & Lowell é mais do que um simples regresso ao som tímido de Michigan (2003) e qualquer outro registro inicial do compositor, mas uma obra que segue de forma isolada, dentro de seu próprio caminho. Talvez “contraste” seja a palavra que melhor sintetize o caráter dicotômico do álbum – grandioso e minimalismo, melancólico e doce -, um exercício autoral que esbarra na obra de Nick Drake – Pink Moon (1972) – e até Elliott Smith – Either/Or (1997) XO (1998) -, mas, em nenhum momento, invade o campo particular de Stevens, por ora, o autor e personagem de uma história tão familiar, comovente e acessível que poderia pertencer a qualquer um.

 

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