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Disco: “Cavalo”, Rodrigo Amarante

Rodrigo Amarante
Brazilian/Alternative/Indie
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Por: Cleber Facchi

Rodrigo Amarante

A explosão carnavalesca da Orquestra Imperial, a sonoridade preguiçosa do Little Joy. Um passeio pelos Estados Unidos com Devendra Banhart, uma visita para lembrar das nunca esquecidas canções do Los Hermanos. Lá e aqui, euforia e carnaval. Agora silêncio. Em mais de seis anos, desde que o adorado/odiado quarteto carioca deu fim “temporário” às atividades de estúdio, Rodrigo Amarante, seguido de perto por Marcelo Camelo, foi quem mais se divertiu. Saltando entre projetos, brincando com ritmos e colaborações, o músico deixou o cercado próprio a que estava habituado para caminhar pelo exterior, regressando vez ou outra ao território conquistado por aqui. Agora, em um trote lento, o cantor entrega ao público o primeiro disco solo, Cavalo (2013, Slap), obra que, em oposição às expectativas, se ambienta em um cenário completo de reclusão.

Isolamento, saudade, ressaca e reflexão. Como um corte brusco aos exageros coloridos que cercaram Amarante até o último ano – vide a energia de Fazendo às Pazes Com o Swing -, Cavalo atende ao distanciamento. Trata-se de um disco inteiro sobre esse resultado, sobre ir para casa, estar só. Um estranho sentimento de pós-festa ou o mesmo efeito que surge depois de uma longa viagem ao exterior em que o indivíduo se divide entre a saudade recente e o passado constante. Sem se preocupar com a própria essência, talvez pontuada de forma clara com a melancolia branda tratada no fatídico 4 (2005), o músico apresenta ao ouvinte uma obra que parece compreendida apenas por ele, mas que autoriza instantes rápidos de aproximação para o ouvinte.

Das guitarras coloridas de Retrato Pra Iaiá ao teor ensolarado de Deixa o Verão, pouco parece ter sobrevivido ao recente invento do músico carioca. Mesmo a tão aclamada melancolia épica de Sentimental e Último Romance se faz inexistentes. Tudo se revela com diminuição, quase medo, como se nenhuma composição fosse muito além de um limite específico. Da massa Lo-Fi e compacta de Evaporar – faixa de encerramento do debut ao lado de Binki Shapiro e Fabrizio Moretti -, é de onde parece vir toda a essência que abastece o presente disco. Tímido e analógico, o álbum é um olhar para as construções em estúdio proclamadas entre os anos 1950 e 1960, algo que o produtor Noah Georgeson (que já trabalhou com Joanna Newsom, Robin Pecknold e Little Joy) reforça com uma garagem de equipamentos empoeirados. Apenas uma, das inúmeras provas, de que a mente de Amarante parece concentrada em outro tempo, desvendado apenas por ele.

Rodrigo Amarante

Ardiloso, Cavalo é uma obra que esconde por trás do minimalismo autoral do compositor um jogo inteligente (e naturalmente discreto) para fisgar o ouvinte. Ainda que pareça sustentar o contrário, o álbum entalha em cada “nanana” de Nada em Vão, acorde sujo em Hourglass ou suspiro vocal de The Ribbon uma premissa para habituar o espectador. São pequenos traços sonoros e vocais que logo na primeira audição familiarizam o ouvinte com o novo cenário proposto – independente da crueza que concentre a formação das faixas. É como se as melodias pop até então relacionadas ao trabalho de Amarante fossem apresentadas em marcha lenta, afinal, qual a resposta para que músicas tão simples quanto I’m Ready ou qualquer uma das canções do álbum consigam impressionar?

Mas essa capacidade em lentamente capturar o ouvinte faz do disco uma obra convincente em totalidade? Não. Mesmo o jogo atento do músico em espalhar pequenas arapucas sonoras pela obra não o protege de escorregar em vários momentos. Por mais que a estética do disco seja essa, intimista, Cavalo se apresenta em diversos instantes como uma obra inacabada, uma espécie de demo ou possível rabisco musical. A própria resposta para isso vem de dentro do disco, afinal, enquanto músicas como Irene e a quase sorridente Maná incorporam melodias de cuidado, texturas e pontas bem amarradas, outras como Tardei se deixam arrastar em um efeito monotemático, denso em demasia. A própria homogeneidade do álbum sufoca o espectador em alguns pontos, principalmente depois de Maná, quando o disco envereda para um campo acinzentado e de lírica excessivamente compacta – efeito potencializado pela já tradicional voz anasalada do cantor.

Desconstrução de si próprio e experiência particular compartilhada, Cavalo é uma obra que mesmo marcada por pequenos limites não deixa de convencer. Melhor exemplo disso está na manifestação sorumbática de O Cometa, música que funde o velho (no jogo quase brincalhão das palavras) e o novo (na fragmentação tímida dos arranjos) Amarante em uma medida exata, benéfica para ambas as partes. A própria multiplicidade linguística do disco – resultado do óbvio passeio do músico ao longo dos anos – parece longe de surgir forçada, vindo como algo natural, por vezes até necessária para a composição final da obra. Entretanto, no imenso quebra-cabeça que é o primeiro álbum solo de Amarante, a imagem final que o músico busca materializar parece bastante clara, já o encaixe das peças, talvez nem tanto.

 

Rodrigo Amarante

Cavalo (2013, Slap)

Nota: 6.5
Para quem gosta de: Devendra Banhart, Little Joy e Marcelo Camelo
Ouça: O Cometa, Maná e Nada em Vão

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9 thoughts on “Disco: “Cavalo”, Rodrigo Amarante

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