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Disco: “Centipede Hz”, Animal Collective

Animal Collective
Experimental/Psychedelic/Indie
http://animalcollective.org/

Por: Cleber Facchi

 

Quem acompanha o trabalho de bandas que brincam com o experimental como Radiohead, Deerhunter ou The Flaming Lips compreende bem o que é essa necessidade de encontrar em cada novo lançamento um resultado que vá além dos limites do disco anterior. É como se independente da pluralidade de acertos que caracterizam o último registro apresentado pela banda, o próximo precise de alguma forma ultrapassar novas barreiras – mesmo que elas não existam mais. É exatamente com esse “problema” que lida o quarteto nova-iorquino Animal Collective no decorrer do recente Centipede Hz (2012, Domino), afinal: quais são os limites a serem ultrapassados depois do lançamento de um disco tão grandioso e único quanto Merriweather Post Pavilion?

Desde o lançamento do oitavo registro em estúdio há mais de três anos que a banda formada por David Portner (Avey Tare), Noah Lennox (Panda Bear), Brian Weitz (Geologist) e Josh Dibb (Deakin) parece lidar com esse instigante questionamento: “como superar o insuperável?”. De fato, ao voltarmos nossos olhos para toda a complexa discografia da banda – iniciada em agosto de 2000 com o disco Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished – é como se tudo que fora construído se encaminhasse de alguma forma para o que eles finalizaram em 2009. O que em outras épocas fora acústico se transformou em eletrônico, o ruidoso virou melodia e o que antes era experimental estranhamente se aproximou da música pop – ou de que outra forma você definira músicas como My Girls e Summertime Clothes?

Contudo, quem há tempos acompanha o trabalho do quarteto sabe que a necessidade de superar, ou melhor, evoluir a cada disco é constante, logo, nos mais de 50 minutos do novo álbum o que encontramos é uma sequência de primorosos e ainda mais atrativos experimentos. Se Moonjock prepara o terreno, Today’s Supernatural expande o que só será finalizado no toque de psicodelia típica da década de 1970 que define Amanita. Antes do fim, entretanto, a banda fornece subsídios para o estabelecimento de uma nova soma de hits tão atrativos quanto os entregues há três anos. Da épica e pop Monkey Riches, passando pelo semi-romantismo de Rosie Oh aos experimentos percussivos de Wide Eyed (que mais uma vez revelam a aproximação da banda com os sons dos anos 70, principalmente Pink Floyd), tudo no álbum contribui para a formação de um trabalho que praticamente apresenta a sonoridade do grupo para quem ainda desconhece a trajetória do coletivo animal.

Para a felicidade de quem torce pelo novo e pela constante inovação dos nova-iorquinos, em Centipede Hz a banda parece longe de incorporar a mesma proposta assumida no trabalho passado, voltando os experimentos para o que fora incorporado em 2007 no lançamento de Strawberry Jam e aprimorando essa tonalidade. Das vozes que passeiam por campos distintos à instrumentação que valoriza o uso da percussão, durante toda a extensão do novo álbum a banda cria mecanismos que os aproximam do que fora testado em outras épocas e até de algumas novas tendências. Seja pelo ritmo crescente que estabelece as principais marcas de Today’s Supernatural ou a psicodelia dançante e tribal que se firma no decorrer de Applesauce, cada instante dentro do álbum torna claro que aqui os rumos são outros, com a banda se afastando da psicodelia sintetizada do último disco para incorporar um toque mais firme, cativante e até mais comercial do que fora testado previamente.

A parceria com o produtor Ben H. Allen mais uma vez se revela como uma decisão interessante dentro do disco. É como se a presença do norte-americano servisse como limite natural aos experimentos da banda, impedindo que o quarteto alcance um nível de desordem que se torne inacessível aos ouvintes – mesmo aqueles já habituados aos constantes inventos do grupo. Em Centipede Hz a presença de Allen funciona de maneira ainda mais acertada do que no trabalho passado, afinal, enquanto no disco anterior cada música parecia expor uma faceta do álbum (ou uma síntese dos melhores momentos de toda a década de atuação da banda), hoje o trabalho flui como um registro de limites bem definidos e composições articuladas de forma homogênea. Cada parte do álbum contribui para a criação de um bloco denso e criativo de som, prova de que a banda resolveu não repetir fórmulas, mas encontrou novos caminhos.

Ainda que o disco consiga estabelecer um renovado percurso ao quarteto, não há como negar que em alguns instantes do álbum a aproximação com anteriores projetos – inclusive com as carreiras paralelas de Panda Bear e Avey Tare – se tornem evidentes. Entretanto, longe de repetir acertos ou elementos já típicos da trajetória do grupo, em Centipede Hz as referências do passado surgem tingidas com novidade, estabelecendo um resultado ao mesmo tempo nostálgico e inovador. Quem achava que ao final de Brothersport e o natural fechamento de Merriweather Post Pavilion a carreira da banda estaria fadada às redundâncias, provavelmente terá de rever esse pensamento. Assim como o caminho incerto da centopeia que caminha pelo título do álbum, instáveis são os rumos que o Animal Collective ainda deve percorrer.

Centipede Hz (2012, Domino)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Panda Bear, Dirty Projectors e Avey Tare
Ouça: Monkey Riches, Applesauce e Today’s Supernatural

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