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Disco: “Chapa Mamba”, Chapa Mamba

Chapa Mamba
Brazilian/Lo-Fi/Garage Rock
http://chapamamba.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

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Existe algo de realmente novo no catálogo de velharias incorporadas pela dupla carioca Chapa Mamba. Brincando com os clichês que esculpem a música nacional desde o meio dos anos 1970, Stêvão “Stêvz” Vieira (Guitarra, Voz) e Bruno Lima (Bateria, Voz) amarram as pontas soltas entre o rock tupiniquim e a cena Lo-Fi que ocupou a música estadunidense nos anos 1990. Um ponto de encontro entre o clássico e “atual”, mas que nunca se esquiva da estranheza que orquestra a obra do duo em um efeito de pura esquizofrenia.

Seguindo a trilha transformadora assumida pelo Boogarins no último ano, o registro sem nome firma em cada canção um objeto de atento descompromisso. São composições que mergulham na psicodelia, refrescam o garage rock brasileiro, até enquadrar os clichês do rock clássico em uma medida suja, mas ainda assim feita para cantar. Anárquico em essência, o álbum abre a cartilha de ruídos lisérgicos expostos por pequenos gigantes como Ty Segall, Black Lips e Thee Oh Sees, bandas estrangeiras que encontram na sujeira – dos versos e arranjos – o mesmo estágio de agitação assumido pela dupla brasileira.

Detalhista, ainda que essencialmente caseiro, o registro mais parece um conjunto de ideias avulsas, esparramadas sem ordem aparente. Canções recheadas por samples artesanais, acordes precisos que se configuram em abusos de LSD ou mesmo pilhas de escombros reformulados do rock nacional. Cada faixa evidencia uma postura inexata, exercício que naturalmente transforma o disco em um imenso delírio musicado. Esparramado em ideias que parecem fluir de uma mente perturbada, o disco aos poucos usa da própria ausência de linearidade como um ponto direto de comunicação com o ouvinte.

Realidade ou sonho, não importa, tão logo tem início o álbum revela na exatidão das formas um mecanismo inteligente de construção. Livre de um provável estágio de ordem, o disco usa da própria estranheza como uma forma de se esquivar dos erros, afinal, já que não existe um ponto específico de ordem a ser explorado, a liberdade se manifesta como uma corredeira criativa para a obra. Torto, o disco é uma sucessão de equívocos que dão certo, uma separação autoral entre o universo particular da dupla e o diálogo com o público médio que assertivamente jamais se concretiza.

Ainda que a (in)coerência sirva como base para a formação da obra, observado de forma atenta o álbum revela dois pontos específicos de separação. Enquanto a primeira metade do disco expressa de forma autêntica a estranheza do duo – cruzando vozes, sons e versos em uma estética completamente chapada -, a partir de Cerveja Quente, sexta faixa do disco, a firmeza dos acordes revela o lado mais “comercial” do duo. São músicas como a urgente Ninguém Presta, ou mesmo a dançante Interurbano Blues, canções que extinguem a interação com a cena estrangeira para absorver as particularidades do rock nacional. Tudo sempre enquadrado dentro do cenário próprio da banda.

Acompanhados de perto por Lê Almeida, produtor do álbum e grande responsável pelo selo carioca Transfusão Noise Records, a dupla estabelece um curioso senso de “ordem no caos”. Mesmo que o fluxo nonsense dos versos prevaleça, a metodologia dinâmica da banda em retratar fatos aleatórios do cotidiano se revela como o grande ponto de equilíbrio do trabalho. Um meio termo constante entre a coerência e instabilidade que define com exatidão toda a versatilidade proposta pela banda.

 

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Chapa Mamba (2014, Transfusão Noise Records)

Nota: 7.6
Para quem gosta de: Boogarins, Lê Almeida e Wallace Costa
Ouça: Faça você mesmo, Ninguém Presta e Novela

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