"Chico"

Chico Buarque

Ano: 2011
Selo: Biscoito Fino
Gênero: Samba, MPB
Para quem gosta de: Tom Jobim e Vinícuis de Morais
Ouça: Querido Diário
Nota: 5.0

Disco: “Chico”, Chico Buarque

O ano era 1967, longe dos versos festivos de A Banda – faixa que catapultou seu trabalho de estreia um ano antes – e ainda mais distante da produção politizada de Morte e Vida Severina, o jovem Chico Buarque no ápice de seus 23 anos resolveu se aquietar. O resultado desse “aquietamento” viria com o álbum, Chico Buarque de Hollanda Vol. 2, um pequeno condensado de sambas e marchinhas leves, um trabalho cercado de composições que se dividiam entre amores docea e o amargor da separação. Visivelmente jovial e simples, mas ainda assim um belo exemplar de toda a poesia de Buarque, aquele seria o último trabalho do músico antes de sua empreitada em meio a condução de versos metafóricos e duros, que mais tarde resultariam na produção do álbum Construção em 1971.

Hoje, aos 67 anos, o carioca tenta retornar ao mesmo caminho abandonado por ele há quase quatro décadas, se aventurando na composição de um registro que ecoe a mesma simplicidade esquecida quando ainda era moço. Denominado unicamente de Chico (2011, Biscoito Fino), o álbum chega para substituir seu anterior trabalho de inéditas, Carioca, disco lançado em 2006 e que dividiu opiniões, tanto do público quanto da crítica mediante a entrega de um trabalho que se fragmentava entre composições comercialmente acessíveis (Ela Faz Cinema e Outros Sonhos), toques da velha MPB (Dura na Queda), além de algumas claras novidades, como a bela Ode aos Ratos.

Antes mesmo de ter o álbum oficialmente lançado, o novo trabalho de Chico Buarque já chamava as atenções do público por suas nova estratégia de venda e divulgação: Todas as informações relacionadas ao trabalho seriam divulgadas via internet, algo parcialmente inédito dentro da velha guarda da música popular brasileira. Assim, o músico soltaria esporadicamente algum vídeo relacionado ao processo de produção do álbum, ou mesmo seria personagem de uma série de depoimentos diversificados, como a cômica reação ao saber o que as pessoas comentavam sobre ele nas páginas da internet.

Além da divulgação, todo o processo de vendas do registro (com custo de R$29,90) seria antecipado através da grande rede, uma estratégia que deu certo, afinal, em apenas 24 horas, durante a pré-venda do trabalho, 1750 unidades do registro foram vendidas ao público. Embora soe como algo mínimo perto das anteriores vendas do músico, este é um número perceptivelmente grande em tempos de queda da indústria fonográfica e massiva circulação de faixas em formato MP3. Entretanto, uma boa estratégia comercial há muito não é sinônimo para a construção de um bom disco.

Nada do que seja projetado ao longo das dez faixas que compõem o recente álbum de Chico trazem algum tipo de novidade ou mesmo acréscimo dentro da própria carreira do músico. A busca por uma sonoridade mais branda e que ecoe as construções musicais do passado acaba resultando em um tratado musical de pura redundância, com o músico dando vários passos para trás em relação à sua carreira. A sensação ao ouvir o disco é a de que o músico não fez um álbum pensando em seu público, sejam as senhorinhas que há tempos acompanham o trabalho do cantor ou mesmo a nova geração que seria “atacada” via grande rede. Chico parece não ter pensado nem nele mesmo ao lançar o álbum, fazendo com que o registro soe de forma eca e até constrangedora em alguns momentos.

Os “du ri du du du” desnecessários ou os trechos em inglês encontrados em Essa Pequena, a melancolia programada e os versos repetitivos de Sem Você 2 ou quem sabe até a instrumentação burocrática que toma conta de todo o trabalho vão aos poucos tornando impossível uma boa audição do álbum, afinal, nada, absolutamente nada é capaz de agradar dentro do disco. Em meio a tantas estratégias e murmurinhos sobre seu novo álbum, o cantor esqueceu do básico: a boa música. O atual registro nada mais é do que um produto de alguém que ainda vive à sombra de suas histórias, se aproveitando dos méritos de um passado distante para brincar de mais do mesmo. Se envelhecer é sinônimo de maturidade, maduro foi Chico Buarque no ápice de seus 23 anos.

 

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