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Disco: “Claridão”, Silva

Silva
Brazilian/Indie Pop/Experimental
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Por: Cleber Facchi

 

Lúcio da Silva Souza parece entender com sabedoria e prática o real significado da palavra “crescer”. Munido de um catálogo singelo de composições, o jovem artista capixaba conseguiu com o primeiro EP de cinco faixas se transformar em um dos nomes mais aclamados da nova geração de músicos brasileiros. Tudo em um curto espaço de tempo. Do lançamento das primeiras músicas em outubro de 2011 ao presente instante, muito passou pela carreira do novato, que assinou com uma gravadora (o selo SLAP, braço da Som Livre), integrou grandes eventos de música pelo país (como a recente edição do Sónar São Paulo), além de ter ampliado significativamente o número de shows ao vivo. Se o músico tem crescido de forma incontestável aos olhos do público, ainda faltava um resultado físico que marcasse de vez esse desempenho e transformação, feito que Silva comprova agora com a chegada de Claridão (2012, SLAP), estreia definitiva de sua carreira.

Nada reducionista em relação às primeiras composições e consciente da necessidade de soar cada vez maior, o músico transforma o aguardado debut em um trabalho que continua exatamente de onde parou há alguns meses. Começando pelo fim, no caso, o fim do mundo, tema da música inaugural 2012, Silva aparece como uma versão tupiniquim e propagadora dos mesmos anseios confessionais do britânico James Blake. Inspiração que ainda passa pela recente onda da Chillwave (imagine os momentos mais doces de Neon Indian), os entalhes épicos do Arcade Fire e uma fina linha eletrônica que distancia o músico de qualquer possível aproximação com a herança do Los Hermanos. Sim, finalmente temos em mãos um registro que caminha pelo terreno nacional sem esbarrar em Amarante, Camelo ou qualquer fiapo de barba que apareça solta por aí.

Claridão é provavelmente um trabalho que irá enfrentar a fúria de uma pequena horda de críticos e ouvintes confusões que hão de desprezar a obra até o último instante. São os velhos. Não senhores sexagenários de cabelos brancos e ralos, mas indivíduos de mente pequena e que ainda mantém a sobriedade amarrada ao passado. Os mesmos “senhores” contrariados e ranzinzas que devem ter se revirado ao encontrar o samba eletrônico de Wado, o romantismo caseiro de Cícero, o electrobrega e o hip-hop versátil que se estabeleceu nos últimos anos. Ouvintes que vão passear pelos ensaios eletrônicos e a tapeçaria erudita de Ventania e Cansei sem entender de fato o que está acontecendo. Silva, por sua vez, sabe exatamente o que está fazendo, e isso é o que realmente importa.

Amplo pela maneira como parece absorver uma infinidade de referências – velhas e recentes -, da primeira à última faixa Claridão se estabelece como um genuíno registro de música pop, no sentido mais direto da palavra. Ainda que envolto por uma veste conceitual – a música clássica-comercial que pende aos inventos de Win Butler ou as nuances Lo-Fi que incorporam Youth Lagoon -, cada verso, nota ou minúscula particularidade prende nos ouvidos como um radiofônico tratado de alcance popular. Talvez o público fervoroso que acompanha o cantor até se force para entender o contrário, procurando algo “conceitual”, mas é difícil não absorver músicas como 12 de Maio ou mesmo a própria faixa título (uma versão tropical e acelerada de Wilhelms Scream de James Blake) sem tê-las como produtos de típico encaminhamento comercial.

Atrativo e dono de uma funcionalidade crescente até a execução da última faixa, se existe algum tipo de “pecado” no decorrer da obra, este se materializa na falta de ineditismo. Aqueles que acompanham o trabalho do músico capixaba desde o último ano encontrarão apenas metade do disco recheado pela novidade, o restante apenas velhas conhecidas do EP de estreia ou o single 2012 lançado há alguns meses. Contrário ao que poderia parecer, a escolha pelo resultado estimula o crescimento de um álbum acolhedor, como se o ouvinte já tivesse certeza do que vai encontrar no decorrer do disco ao mesmo tempo em que se prepara para a seleção cuidadosa de novas composições. Faixas como a leve Falando Sério ou a apaixonada e eletrônica Moletom, que devem aproximar o músico de toda uma nova soma de ouvintes.

Durante a abertura do texto sobre o trabalho de “estreia” do artista no último ano declarei: “EPs sempre me pareceram um prelúdio de que algo grandioso e belo ainda está por vir. Logo, torna-se suspeitável que ao ouvir o primeiro EP do jovem Lúcio da Silva Souza somos diretamente obrigados a esperar por alguma obra de imensurável beleza”. Tendo como base o presente e recém-lançado disco, não é preciso esperar pelo fechamento da romântica A Visita para entender que músico vai além de atender essa expectativa compartilhada, nos presenteando com um resultado capaz de ir muito além do previsível.

Claridão ainda está longe de se estabelecer como uma obra-prima intocável, mas firma bases solidas para qualquer resultado ainda maior que Silva venha estabelecer em um futuro próximo. Por enquanto, toda audição vem acompanhada de sorriso e um nada modesto sentimento de satisfação.

Claridão (2012, SLAP)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: James Blake, Arcade Fire e Cícero
Ouça: 2012, Ventania e Claridão

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