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Disco: “Coisa Boa”, Moreno Veloso

Moreno Veloso
MPB/Bossa Nova/Alternative
https://www.facebook.com/morenoveloso

Por: Cleber Facchi

Moreno Veloso

A voz doce, os arranjos sempre econômicos e versos tomados pela nostalgia logo entregam: Moreno Veloso está em casa. Mais de uma década desde o lançamento do álbum Máquina de Escrever Música (2000) – obra em parceria com Domenico Lancellotti e Kassin pelo +2 -, o cantor e compositor baiano regressa ao mesmo cenário bucólico de Sertão, faixa de abertura do já empoeirado registro, para encontrar a matéria-prima de Coisa Boa (2014, Disco Maravilha), oficialmente, o primeiro trabalho solo do artista.

Distante dos projetos em que esteve envolvido nos últimos anos – como o eletrônico Recanto (2011), de Gal Costa, além dos trabalhos com a Orquestra Imperial e demais álbuns com o +2 -, Moreno (lentamente) abra as portas de um cenário desvendado em essência por ele. Concebido durante o período em que o músico se mudou para a Bahia, o trabalho emana leveza e tranquilidade a cada novo acorde, como se tudo fluísse dentro de uma medida de tempo delicadamente tecida pelo compositor. Contudo, longe do isolamento, a subjetividade e o teor “particular” da obra não custam a abraçar o ouvinte, transportado para o mesmo ambiente tão logo a inaugural Lá e Cá tem início.

Livre de qualquer traço comercial, Coisa Boa escapa com naturalidade das pequenas fagulhas “pop” lançadas com o +2 há 14 anos. A ausência de faixas acessíveis, entretanto, em nenhum momento prejudicam o rendimento da obra. Pelo contrário, em um registro que aposta no aconchego, a exclusão de músicas como Eu sou melhor que você e Deusa do Amor reforça o grande acerto da trabalho: a atmosfera de plena leveza.

Moreno Veloso

Marcado por pequenos retalhos de memória, Coisa Boa é mais do que um reflexo da mudança temporária do cantor para a Bahia. Por todo o trabalho, o resgate de experiências nostálgicas e cenários esculpidos pela saudade apontam a direção para músico, que deixa a fase adulta para resgatar liricamente a própria infância. Não por acaso, grande parte das faixas se entregam ao contexto pueril das palavras e arranjos. Músicas como Jacaré Coruja, Não Acorda o Neném ou mesmo a própria faixa-título, retratos da infância de Veloso e, ao mesmo tempo, uma delicada homenagem do músico aos próprios filhos.

Ainda que Veloso seja o ponto central da obra, durante todo o registro é nítida a presença de colaboradores que atravessam ou mesmo se hospedam no interior das canções. Além dos parceiros do +2, nomes como Rubinho Jacobina, Pedro Só e Rodrigo Amarante mergulham nos conceitos propositadamente tímidos da obra. Mesmo em se tratando dos versos, Moreno não está sozinho. São faixas em parceria com Quito Ribeiro – como a enérgica Um Passo À Frente -, e também com a japonesa Takako Minekawa, esta última, dona da voz doce que acompanham o músico na derradeira Onaji Sora.

Como a capa do disco entrega – uma imagem do Forte da Barra, em Salvador -, Coisa Boa é uma obra sustentada pela intimidade de seu criador. Livre de comparações com o trabalho do pai, Caetano Veloso, Moreno articula um projeto que escapa da pressão para sustentar leveza, uma espécie de trilha para um cenário tão real, quanto metafórico. Mais do que um retrato da Bahia que tanto inspira o compositor, Coisa Boa cresce como um paraíso portátil, a ser partilhado com o ouvinte.

  Coisa Boa (2014, Disco Maravilha)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Domenico Lancellotti, Rodrigo Amarante e Kassin
Ouça: Verso Simples, Lá e Cá e Hoje