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Disco: “Crucificados Pelo Sistema Bruto”, Charme Chulo

Charme Chulo
Indie/Rock/Alternative
http://charmechulo.com.br/

O som da viola caipira, personagens e paisagens bucólicas, um olhar detalhista (e cômico) sobre a vida no campo. Do universo temático que apresentou a banda curitibana Charme Chulo em 2007, pouco parece ter sobrevivido. Dentro de Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014, Independente), terceiro álbum de estúdio do grupo paranaense, apenas solos de guitarra, correria, estrada e paisagens urbanas vistas da janela de um caminhão. Um espaço cinza, distante do mágico panorama esverdeado dos primeiros registros, mas que clama pelo “êxodo urbano”, vide a declarada É Que Às Vezes (Melhor É Morar na Fazenda).

Em um exercício nostálgico e atual, Igor Filus (voz), Leandro Delmonico (guitarra, viola caipira, vocais), Hudson Antunes (baixo) e Douglas Vicente (bateria) fazem do presente disco uma adaptação urbana (não intencional) de tudo aquilo que a banda trouxe como marca nos primeiros álbuns. Os filmes de Mazzaropi, o pós-punk de grupos como The Smiths e até mesmo o contraste entre o romantismo, de Chitãozinho & Xororó, com o punk rock, do Ratos de Porão – o próprio nome do disco é uma brincadeira com os clássicos Crucificados Pelo Sistema (1984), da banda paulistana e Sistema Bruto da dupla sertaneja.

Mesmo extenso – são 20 composições divididas em dois discos -, CPSB curiosamente ecoa de forma muito mais dinâmica e “comercial” em relação ao trabalho anterior da banda, Nova Onda Caipira (2009). Livre de um apelo conceitual como o título e determinadas faixas possam indicar, o grupo interpreta cada música como um ato isolado, a ser explorado sob maior “descompromisso” pelo espectador. Travessias por qualquer centro urbano (Novos Ricos), personagens (Meu Peito É Um Caminhão Desgovernado) e confissões (Palhaço de Rodeio): cada peça do álbum nasce como um leve crônica musicada.

Entre fragmentos autônomos e peças aleatória do imenso quebra-cabeça que sustenta o disco, basta uma audição atenta para isolar os dois atos específicos que movimentam a banda em CPSB. Partindo de Palhaço de Rodeio até a derradeira Caipirinha, no primeiro álbum, enquanto os arranjos de Delmonico abraçam (com leveza) o experimento – vide o funk em Ninguém Mandou Nascer Jacu -, a lírica assinada em parceria com Filus se entrega ao tom satírico. Do sertanejo universitário em Bruta Alegria – “Ô Ô ô Ô Aê Aê Êa” – aos versos de duplo sentido em Fuzarca – “mas tudo por você” / “masturbo por você” -, cada suspiro (lírico ou vocal) reflete uma proposta essencialmente bem-humorada.

A partir da extensa Meu Peito É Um Caminhão Desgovernado, cênica e no melhor estilo Legião Urbana, o ouvinte é mergulhado em um cenário de pequenas oposições em relação ao primeiro ato. Ainda que o bom humor faça parte do segundo eixo da obra, versos sóbrios (Vale a Pena Morrer Pelo Protesto) e temas melancólicos (Karaokê) orientam de forma expressiva o andamento do quarteto. Sobram canções tomadas pela crítica/ironia à la Morrissey (Quem Vai Carpir o Lote?) e até um descontrole na exposição dos ritmos – vide o som caipira de Vinho de Mesa e a eletrônica/Hip-Hop na versátil Multi Stillus.

Em um meio termo entre a cidade e o campo, a Charme Chulo parece ter descoberto um novo cenário de possibilidades. Naturalmente confuso, Crucificados Pelo Sistema Bruto é uma obra que brinca com as possibilidades e até mesmo limites do grupo curitibano. Tão próximo quanto distante de uma possível zona de conforto, o álbum assume com inteligência a estrutura irregular da faixa de encerramento, alternando entre temas que se dividem entre a “nova” e a “velha” música sertaneja – por enquanto, a principal engrenagem criativa do coletivo.

Crucificados Pelo Sistema Bruto (2014, Independente)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Vanguart, Nevilton e Cérebro Eletrônico
Ouça: É Que Às Vezes (Melhor É Morar na Fazenda), Fuzarca e Vinho de Mesa

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