Disco: “Currents”, Tame Impala

Categories Melhores Discos, Resenhas

Tame Impala
Psychedelic/Experimental/R&B
http://www.tameimpala.com/

Olhe para a capa de Currents. Uma sequência de linhas retas, paralelas perfeitamente alinhadas. De repente: um susto. A interferência de um estranho objeto esférico, algo que “não deveria estar ali”. Agitação, desordem, caos. Antes organizadas, perfeitamente posicionadas, as retas de cores sóbrias agora se desmancham em uma corredeira instável, psicodélica. Um tracejado irregular, cheio de curvas, novas cores e caminhos talvez indefinidos.

“Em mecânica dos fluidos, um estudo dos efeitos do escoamento de fluidos na redondeza – troca de forças e energia -, o escoamento chega laminar (ordenado) até a interferência onde se formam regiões de turbulência. A diferença de pressão entre o fluido que bateu no cilindro e o fluido que está atrás dele gera a turbulência. Note que a capa do single Let It Happen, primeira canção do disco, ainda mostra o escoamento ordenado”*.

Lembrou de alguma coisa?

Muito além do caráter técnico, um simples “ilustração”, a imagem assinada pelo artista gráfico e músico norte-americano Robert Beatty resume com naturalidade a curta trajetória do Tame Impala. Enquanto a psicodelia suja e forte relação entre Innerspeaker (2010) e Lonerism (2012) representa a linearidade assumida pela banda nos últimos anos, os quase oito minutos de experimentos eletrônicos, colagens e adaptações de Let It Happen, faixa de abertura do presente álbum, revela a passagem para um caminho sinuoso, propositadamente instável, turbulento, que o grupo australiano assume no presente registro.

Led Zeppelin virou Bee Gees, The Flaming Lips encontrou Toro Y Moi, enquanto Britney Spears, confessa influência de Kevin Parker em Lonerism, agora abre espaço para a chegada de Michael Jackson. Como não lembrar de clássicos como Thriller (1982) e Bad (1987) quando começam as batidas dançantes de The Moment? E o que dizer de Past Life, música que vai do Synthpop ao R&B dos anos 1980 em segundos. A essência psicodélica da banda ainda é a mesma dos primeiros discos, porém, agora aparece em segundo plano, dissolvida em meio as emanações vocais de Parker, um romântico em cada movimento lírico do trabalho.

Obra de sentimentos, Currents sustenta nos versos uma rara exposição de Kevin Parker. Trata-se do álbum mais intimista, doloroso e, ainda assim, acolhedor já montado pela banda. Canções marcadas por pedidos de desculpas (‘Cause I’m A Man), relacionamentos fracassados (Eventually) e até mesmo versos costurados pelo mais profundo sofrimento (The Less I Know The Better). Uma constante sensação de que todo o arsenal melancólico do álbum anterior – caso de She Just Won’t Believe Me e Why Won’t They Talk To Me? – “floresceu” dentro do campo fértil de sintetizadores que se espalha do primeiro ao último instante da obra.

Próximo e ao mesmo tempo distante da sonoridade incorporada até o último disco, Currents sustenta durante toda a execução pequenas pontes instrumentais para o álbum de 2012. É o caso de Disciples, uma rápida passagem pelo mesmo rock psicodélico (e nostálgico) das primeiras canções da banda. E o que dizer de The Less I Know The Better, composição que poderia facilmente ser encontrada dentro do primeiro álbum do grupo. No restante da obra, o completo domínio dos sintetizadores, instrumento que não apenas oculta (temporariamente) as guitarras, como aproxima o grupo de todo um novo mundo de possibilidades eletrônicas (Let It Happen), além de diálogos com a música pop (The Moment) e até Hip-Hop (Past Life).

Ao fundo de cada faixa, um universo imenso, repleto de fórmulas instrumentais complexas, texturas e arranjos que visitam diferentes campos da música. Logo, ao explorar o cenário criado por Kevin Parker, o julgamento binário de “gostei” ou “não gostei” é instantaneamente derrubado. Não se trata mais e “sim” ou “não”, mas de quanto tempo será necessário até que Currents convença o ouvinte.

Currents (2015, Modular / Interscope)

Nota: 9.5
Para quem gosta de: Unknown Mortal Orchestra, Neon Indian e Michael Jackson
Ouça: Eventually, The Less I Know The Better e ‘Cause I’m A Man

*Lucas Silva, amigo e Engenheiro Mecânico.

Veja também:

Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

15 thoughts on “Disco: “Currents”, Tame Impala

  1. Vários aspectos são mesmices nesse álbum, inclusive um deles é o hip hop de influências de batidas hip hop e o exagero no uso do efeito Reverb em determinadas faixas, dá a impressão delas serem anti-profissionais e básicas.
    Por isso mesmo, além dos singles que são bons o álbum se tornou mediano, no caso merece um 6.5/10

  2. Na minha opinião, esse é o melhor albúm do Tame Impala. Um álbum muito coeso e com todas as faixas constituindo-se como um prelúdio para a próxima.

    Kevin Parker e sua banda são tudo que MGMT e Foster the People falharam em ser.

  3. Achei interessante terem mudado radicalmente o clima dos albums, porém se continuassem com a mesma vibe de lonerism e innerspeaker ficaria melhor… 7/10.

  4. Esse link com beegees acho que é equivocado. O popload também usou. Se fosse para citar uma referência dessa época usaria o ABBA. Mas o que me lembrou mesmo foi o Duran Duran. Em tempo: gostei muito.

  5. Depois de anos sem visitar o site, o que eu vejo? Mais uma nota ridiculamente pra outro álbum derivativo e medíocre de outra bandinha indie descolada do momento. O que é isso? Medo de perder seus leitores hipsters? Ou vocês realmente acham que esse lixo seja uma obra-prima, que merece ser elevado ao patamar de grandes bandas como TVU e Beach Boys?
    Vocês não diferem nada de menininhas de 12 anos que lêem Capricho e escutam Luan Santana (aliás, vocês são piores que elas, pois além de vazios, vocês são pretensiosos). Continuem exaltando artistas que prezam mais a imagem que qualidade musical, indiezinhos bostões.

  6. Eita, 9.5/10? Ouvi o álbum uma ou duas vezes, apenas, sem prestar muita atenção, mas acho que cê pegou pesado aí, Cleber. Quem sabe eu ~aprenda a apreciar o disco com o tempo, mas… 9.5? Sei não.

  7. Quanto mimimi nesses cometários, a criançada não sabe respeitar opiniões diferentes da sua.

  8. No geral parece-me uma boa crítica ao álbum, sem grandes reparos a fazer. Talvez a nota seja excessiva, não sei, só o tempo o dirá.

    No entanto, a frase a reter é mesmo a última:

    “Não se trata mais e “sim” ou “não”, mas de quanto tempo será necessário até que Currents convença o ouvinte.”

    A verdade é que da primeira vez que ouvi o álbum, não me agradou de todo. Mas voltando a pegar nele, começa a soar muito bem!

  9. Apesar de usar elementos já saturados de outros trabalhos da banda, o álbum inteiro é muito bom.

  10. Um álbum realmente bom. Mas a critica tá exaltando demais o som… E é o que se passa por aqui, um tal de puxar sardinha pros “caras” do momento.

  11. O álbum é muito bom. Mas 9.5? Nem a pau. 9.5 é praticamente a perfeição. 8.5 talvez.

  12. 9.5 foi um exagero. Não há essa genialidade toda no álbum que eu já não tenha visto em outras obras psicodélicas dos anos 2000. Sinceramente, é um bom álbum, mas nada de genial.
    Alguns vocês elogiam tanto e não dão essa moral toda não.

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