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Disco: “Dancê”, Tulipa Ruiz

Tulipa Ruiz
Pop/Female Vocalists/Alternative
www.tuliparuiz.com.br/

Aos gritos de “Começou! Começou!”, Tulipa Ruiz anuncia: o acesso à pista de dança foi liberado. Fuga evidente do “pop florestal” que apresentou a cantora paulistana em Efêmera, de 2010, Dancê (2015, Natura Musical) não apenas reforça o caráter urbano que orienta o trabalho da artista desde o último álbum de estúdio, Tudo Tanto (2012), como entrega ao público uma cantora renovada, mais uma vez atenta ao som pop dos primeiros registros, porém, descomplicada e, claro, dançante.

Quem esperava pela produção de um som “regional” por parte de Ruiz, marca explícita no ritmo carnavalesco de Megalomania ou na recente colaboração com o paraense Felipe Cordeiro, em Virou, encontrará o oposto. Da flexibilidade das guitarras ao posicionamento enérgico dos vocais, dos versos que discutem temas cotidiano ao transparente véu eletrônico que cobra parte do trabalho, Ruiz caminha pelas pistas da capital paulista de forma a produzir um som homogêneo, quase acizentado, como uma fuga da atmosfera “hippie” lançada em faixas como A ordem das árvores ou Efêmera. Curioso pensar que parte expressiva do recente trabalho foi concebido no isolamento de uma casa de campo, no interior de São Paulo.

Contrário ao efeito causado pelo próprio título, Dancê está longe de parecer um arrasa-quarteirões das pistas de dança, pronto para ser tocado em qualquer balada. Ainda que músicas como inaugural Prumo e Físico praticamente obriguem o ouvinte a balançar o esqueleto, do primeiro ao último ato, o terceiro álbum de Tulipa parece feito para dançar com calma, livre de excessos ou diálogos exagerados com a eletrônica. Trata-se de um passeio por diferentes décadas e campos da música “dançante”; uma extensão controlada (e nada caricata) do mesmo som pop produzido pelo amigo Rafael Castro em Um Chopp e um Sundae, obra também apresentada em 2015.

Longe de parecer um trabalho de ruptura, ineditismo e profunda transformação dentro da carreira da cantora, Dancê soa muito mais como uma reciclagem de conceitos. A julgar pela estrutura montada (principalmente) para os vocais e versos rápidos do disco, muito do que sustenta a obra descende de faixas como Às Vezes, do primeiro álbum, além de Quando Eu Achar e É, do segundo disco. Músicas regidas pelo espírito das apresentações ao vivo da cantora, preferência que alimenta mesmo as canções mais tímidas do novo disco, caso da jazzística Tafetá ou mesmo a macambúzia Oldboy, penúltima faixa do registro.

Oposto ao desajuste e estranha interferência de Lulu Santos no trabalho anterior – parceiro na faixa Dois Cafés -, cada convidado do presente disco não apenas interfere, como garante complemento ao trabalho de Tulipa. Enquanto João Donato assume a responsabilidade pela atmosfera “carioca” de Tafetá – conceito que se replica em faixas do eixo final da obra -, a sonoridade quente e quase “latina” de Felipe Cordeiro em Virou garante uma quentura romântica ao disco, rara dentro do acervo autoral de Ruiz. Sobra espaço para Thiago França, Juçara Marçal e Kiko Dinucci (Metá Metá) em Algo Maior, as guitarras de Lanny Gordin em Expirou, além do tempero eletrônico de Kassin na divertida Físico.

Produzido ao lado do irmão e velho colaborador Gustavo Ruiz, Dancê é o primeiro disco de Tulipa em que referências ou possíveis comparações ao catáogo de antigas vozes da MPB são instantaneamente derrubadas, varridas para longe das canções. Enérgico, direto ao ponto e deliciosamente pop, o presente álbum reflete a essência bem-humorada de Ruiz, como uma transposição (quase) cênica das mesmas vozes, suspiros, gritos e sorrisos que ocupam as performances ao vivo da artista, hoje capaz de dialogar com os mais variados grupos de ouvintes sem que existam possíveis restrições.

Dancê (2015, Natura Musical)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Rafael Castro, Thiago Pethit e Marcelo Jeneci
Ouça: Proporcional, Oldboy e Algo Maior

Para o amigo Gustavo Assumpção.


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