Disco: “De Graça”, Marcelo Jeneci

Marcelo Jeneci
Brazilian/Alternative/Indie
http://www.marcelojeneci.com.br/

Por: Cleber Facchi

Marcelo Jeneci

Se pudesse definir De Graça  (2013, Slap), segundo álbum solo de Marcelo Jeneci, em uma só frase, provavelmente seria algo como: “Um disco para toda a família”. E de fato é exatamente isso que o cantor e compositor paulistano ressalta com o sucessor de Feito Pra Acabar (2010). Da coleção presente de típicas canções de novela, representadas por Temporal e Alento, aos versos que esbarram na temática pueril, com Só Eu Sou Eu, até as canções perfumadas pela saudade, Um de Nós, cada faixa instalada no registro emana referências que parecem atender aos mais diversos públicos. Crianças e adultos, solteiros e casais, na sessão livre de Jeneci há espaço para todos – sem restrições.

Movido pela temática de que “o melhor da vida é de graça”, Jeneci faz nascer uma obra recheada por temas sutis, observando os sentimentos em um teor de continuidade ao que fora proposto em músicas como Felicidade. São versos de apelo cotidiano, sorrisos honestos e um sentimento confortável que quase raspa na auto-ajuda. De fluxo sorridente, algo nítido na construção poética de Temporal (“Deixa passar o dia ruim/ Que a tempestade resolve com Deus”) e O Melhor da Vida (“O que vale nessa vida é ver como você aproveita”), o registro, mais do que reforçar a delicadeza típica do trabalho do músico, serve como um refúgio para quem busca por acalento.

Quem acredita que a escolha de Jeneci em “facilitar” prive o ouvinte de instantes de maior invenção e complexidade, verá nos instantes iniciais que na trama do cantor há espaço para tudo, menos redundância. Visivelmente atento aos padrões e bases lírico-instrumentais testadas há três anos, o músico faz de cada canção espalhada pela obra um campo aberto ao uso de melodias e letras essencialmente atrativas. Trata-se de uma interpretação ainda mais pop e naturalmente particular do cenário exposto em Feito Pra Acabar, como se na curva ensolarada de Pra Sonhar – ou qualquer outra canção essencialmente acessível do álbum passado -, o cantor encontrasse veteranos como Toquinho, Erasmo Carlos e todo um novo catálogo de novas possibilidades comerciais.

Embora marcada pelo nome e o sobrenome do cantor, De Graça está longe de parecer um registro individual de Jeneci. Como uma evolução ao exercício iniciado com acerto no álbum passado, cada música do registro ecoa dinamismo em virtude da ampla interferência – lírica, vocal e sonora – de outros artistas. Kassin e Adriano Cintra na produção, Eumir Deodato nos arranjos orquestrais ou mesmo Arnaldo Antunes nas vozes e versos, cada música instalada no disco se abre para a chegada dos visitantes. Tudo com naturalidade. O próprio território de Laura Lavieri, velha parceira do cantor, parece  reforçado em proximidade ao debut, assumindo individualmente as vozes de Pra Gente Se Desprender, Tudo Bem, Tanto Faz e porções ainda maiores no restante das canções.

Livre de uma possível estrutura ascendente, efeito bastante nítido na estética do registro anterior, De Graça faz de cada música um objeto isolado. Com base nesse princípio, Jeneci vai da celebração (O Melhor da Vida) à melancolia (Um de Nós) em um detalhamento dicotômico que jamais ecoa estranheza. Melhor exemplo da capacidade do músico em brincar com gêneros está na abertura do disco, afinal, nada parece fluir de forma mais “exata” do que sair do clima tropical da faixa-título para logo depois mergulhar no pop radiofônico e “convencional” da música Temporal. Até Só Eu Sou Eu, uma espécie de jingle para um comercial de margarina (ou seria uma cantiga infantil?), emenda com acerto na sobriedade de 9 Luas, música de encerramento do disco e um dos pontos mais obscuros do registro.

Mesmo sem o mesmo enquadramento grandioso exposto no registro passado – efeito parcialmente resgatado em Um de Nós e Pra Gente Se Desprender, fruto das orquestrações de Eumir Deodato -, De Graça é um trabalho que assume na leveza seu maior acerto. Essencialmente esperançoso e feliz, mesmo quando entrega os versos mais tristes, o registro, longe do que ser encarado como um simples álbum, flui como um espaço específico. Um refugio particular que bem compactua com a estética primaveril expressa pelo autor durante toda a extensão do trabalho.

Parte natural desse efeito vem da relação dinâmica de Jeneci e dos próprios convidados no que se resume ao uso apurado dos instrumentos. Mesmo desenvolvidas em cima de conceitos próprios, cada música – com exceção da faixa-título -, nunca rompe com o que parece ser uma arquitetura base prevista para a obra. Mesmo dentro desse efeito homogêneo e autoral, curioso observar como diversos aspectos do álbum esbarram na herança do Skank pós-Maquinarama, algo que faixas como Temporal e a rapidinha Nada A Ver manifestam de forma harmônica em poucos instantes. Trata-se de uma relação maior com o pop, não o gênero plástico sustentado hoje em dia, mas o estilo (quase nostálgico) firmado em meados da década de 1960 e encarado de forma particular por Jeneci. Apenas uma, das inúmeras provas, de que em um cenário onde está cada vez mais próximo do grande público, Marcelo Jeneci talvez seja a resposta para entender que ainda é possível brincar com o pop sem necessariamente cair em exageros que há tempos sufocam o gênero.

Se o melhor da vida é de graça, então Jeneci soube exatamente como captar isso e transformar em música.

Marcelo Jeneci

De Graça (2013, Slap)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Tulipa Ruiz, Silva e Marcelo Camelo
Ouça: Pra gente se desprender, Temporal e O melhor da vida

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  • Rogerio Teixeira

    Que disco bom retado, sem dúvidas esse cara tem RÉGUA E COMPASSO! Aumente o som e saia dançando “De graça”, faço isso pela manhã pra fazer valer o dia!