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Disco: “De Lá Não Ando Só”, Transmissor

Transmissor
Brazilian/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/transmissoroficial

Por: Cleber Facchi

Há quem possa dizer que maturidade é uma experiência a ser conquistada por qualquer artista, lentamente. Décadas de atuação, formação em estúdio e eficiente domínio de palco nas apresentações ao vivo. Porém, em se tratando da banda mineira Transmissor, este suposto senso de maturidade sempre esteve presente, desde o primeiro disco, apenas adaptado a cada novo álbum. Distante das comparações com a banda carioca Los Hermanos – herança evidente no debut Sociedade do Crivo Mútuo (2008) -, e em um sentido de continuidade ao trabalho exposto em Nacional, de 2011, ao alcançar o terceiro registro em estúdio, o grupo de Belo Horizonte prova que mesmo dentro de uma discografia confortável, é possível se reinventar.

Expansivo, ainda que atento ao aspecto tímido das canções que definem a estética da banda, De Lá Não Ando Só (2014, Independente) isola o sexteto mineiro em um cenário abastecido pelas referências e emanações explícitas de identidade. Como o álbum entregue há três anos já havia identificado, cada composição do grupo cresce com igual beleza em um ambiente propositalmente compacto e acolhedor. São versos que discutem relacionamento, atentam para a tristeza de seus compositores e usam de pequenas particularidades confessionais de forma a dialogar com o público. Um espaço em que a dor assertivamente se converte em melodia.

Mais do que um experimento ou conjunto de ideias, como o registro passado já havia identificado, ao alcançar o terceiro disco a banda apresenta um terreno de plena segurança. São canções que dialogam em uma mesma atmosfera instrumental, guiando com acerto o ouvinte desde a abertura do álbum, em Queima o sol, até a densa canção de encerramento, Casa Branca. Pode parecer reflexo da presença de Carlos Eduardo Miranda quanto atento produtor do disco, entretanto, basta a sutileza lírica/instrumental que amarra cada faixa para perceber quem são os “culpados” por tamanho acerto. Pedro Hamdan (Bateria), Daniel Debarry (Baixo), Henrique Matheus (Guitarra/Bandolim), Leonardo Marques (Voz/Guitarra/Teclado), Thiago Corrêa (Voz/Violão/Teclado) e Jennifer Souza (Voz/Guitarra/Teclado) deixam de funcionar como um coletivo para atuar como uma mente única.

Com ares de obra esquecida do começo dos anos 2000, De Lá Não Ando Só resgata aspectos específicos de grupos como Astromato, Pullovers e outros projetos veteranos que há muito descansam em paz. São faixas acolhedoras, comercialmente insignificantes, mas recheadas pela honestidade dos versos. Mesmo o caráter “não comercial” do disco, ou se ele é pensado para “as massas”, parece discutível com o passar das músicas. Basta a versatilidade pop de Só um e 25 horas por dia, ainda na abertura do álbum, para perceber como o leque de possibilidades da banda se revela ampliado. Canções que se movimentam em uma medida de tempo própria, mas surtem efeito sem prazos, públicos ou limites específicos.  

Atento ao passado e pequenas referências particulares do grupo – como a evidência do Clube da Esquina em Todos vocês -, De Lá Não Ando Só é um trabalho que funciona em uma atmosfera própria, uma espécie de recomeço para a Transmissor. Como peças lentamente posicionadas e capazes de revelar uma figura específica, o disco usa de cada música como uma ferramenta de definição para o ambiente final da obra. Perceba como as guitarras climáticas e o clima “piano bar” de Nossas horas servem de apoio para a graciosa Nada pra te devolver, exposta logo em sequência. São tapeçarias finas de ruídos e bases climáticas capazes estabelecer comunicação a cada instante do registro. Não por acaso a palavra “aconchego” surge com naturalidade no decorrer da obra, transformando o trabalho em mais do que um disco, mas uma espécie de “morada”.

Orquestrado com leveza, o álbum equilibra as vozes de Leonardo Marques, Thiago Corrêa e Jennifer Souza sem que exista qualquer traço de distinção aparente. Tudo se faz exposto em um exercício de fluidez homogênea, como se um mesmo personagem – e suas histórias tristes – fossem dissolvidas com o passar da obra. Não há começo, nem fim, como se as pontas (se é que elas existem) fossem amarradas em um ciclo exato, obrigando o regresso do ouvinte tão logo o último ato de Casa Branca tem início. Se a maturidade sempre esteve presente na atuação da banda, em De Lá Não Ando Só a Transmissor prova que ainda pode ir (muito) além.

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De Lá Não Ando Só (2014, Independente)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Jennifer Souza, Fabio Góes e Cambriana
Ouça: De Lá Não Ando Só, O que você quer ouvir e 25 horas por dia


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