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Disco: “Derivacivilização”, Ian Ramil

Ian Ramil
Indie/Alternative/Rock
http://www.ianramil.com/

Em Derivacivilização (2015, Independente), Ian Ramil está longe de parecer o mesmo artista apresentado no inaugural IAN. Violento, o cantor e compositor gaúcho deixa de lado a estrutura melódica testada no primeiro álbum de inéditas, de 2014, para incorporar arranjos e versos essencialmente caóticos. Em um exercício que ocupa dez faixas e se estende durante mais de 40 minutos, Ramil pinta um retrato honesto dos diferentes núcleos e conflitos que fragmentam o atual cenário político e social brasileiro.

Corro, paro, olho, choro, grito, eu ando a cada dia mais vulgar e aflito / O mundo é um skinhead eu sou um gay”, explode o cantor na urgente faixa de abertura, Coquetel Molotov, um indicativo da proposta incendiária que abastece grande parte das canções. Em um uso descontrolado de versos ásperos, marcados pelo uso de palavras de baixo calão – “Se buceta eu sou uma vadia, se piroca, vem sentar na minha” -, o compositor transforma em música os mesmos textos abusivos que diariamente invadem a timeline do Facebook.

Artigo 5º, parceria com a irmã Gutcha Ramil, é outra que esbarra na mesma temática. Tecida com ironia, a faixa inaugurada com trechos da Constituição Federal – “Todos são iguais perante a lei / Sem distinção de qualquer natureza” -, logo mergulha em um misto de deboche, angústia e raiva. “Mas, você se quiser / Pode cagar nesse artigo / E, se tiver poder / Pode cagar nessa constituição”, desabafa Ramil em uma sequência de versos que dialogam com a disparidade, corrupção e abuso de poder que define a política/sociedade brasileira desde sua formação.

Fuga rápida desse universo tumultuado, Devagarinho nasce como um respiro essencial para o sustento e equilíbrio do restante da obra. “Volta pra cama / Vem te deitar/ Devagarinho / Que é pra não me acordar”, sussurra o cantor em meio a uma base acústica que detalha o cotidiano típico de um casal. Difícil não lembrar da doce (e também isolada) Cartão Postal, faixa de encerramento do segundo álbum de estúdio da conterrânea Apanhador Só, Antes Que Tu Conte Outra (2013).   

Por falar na Apanhador Só, não são poucos os momentos em que membros e ex-integrantes do coletivo gaúcho ganham destaque no interior de Derivacivilização. Enquanto o vocalista Alexandre Kumpinski divide os versos com Ramil no samba rock A Voz da Indústria, Felipe Zancanaro assume a responsabilidade por grande parte das guitarras espalhadas pela obra. Ex-baterista do grupo e hoje integrante da Quarto Sensorial, Martin Estevez é quem orienta as batidas das faixas. Sobrem ainda participações como a de Filipe Catto, na faixa-título, além do clarinetista e pianista Pedro Dom, da Orquestra Celestial do Livre Arbítrio

Intenso, Derivacivilização é um trabalho que parece orquestrado de forma a surpreender o ouvinte a cada nova execução. Partindo de um dos versos centrais da própria faixa-título – “As coisas não ditas apodrecem em nós” -, Ian Ramil finaliza uma obra urgente e necessária, como um desabafo, despejando a solução de versos, gritos e arranjos fortes que atingem o ouvinte até o último instante do álbum.

Derivacivilização (2015, Independente)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Apanhador Só, Passo Torto e O Terno
Ouça: Coquetel Molotov, Derivacivilização e Devagarinho