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Disco: “Desconocidos”, Quarto Negro

Quarto Negro
Brazilian/Indie/Alternative
http://www.myspace.com/quartonegro

 

Por: Cleber Facchi (@cleberfacchi)

Da singeleza instrumental e lírica da primeira demo ao crescimento inesperado e todo o agregado de sensações repassados com o EP Bom Dia, Lua, ao longo dos últimos três anos todos os caminhos percorridos pelos paulistanos do Quarto Negro apontavam unicamente para cima. Aprisionada inicialmente em um ambiente de aspecto obscuro e circundada por um misto de timidez e melancolia, a banda aos poucos foi soltando suas confortáveis amarras, buscando, sempre que possível, entrelaçar seus versos e sua música de maneira crescente, raspando eventualmente em contornos mais épicos, algo perceptível quando observamos a grandiosidade de Olhos Baixos, faixa que tem suas experiências agora reforçadas com a chegada do primeiro grande álbum da banda.

Tomado por uma funcionalidade estrutural que transforma seus versos, melodias e suas amarguradas texturas em algo sempre grandioso, Desconocidos (2011, Daruma Records), estreia do trio formado por Eduardo Praça (voz e guitarras), Fabio Brazil (voz e baixo) e Thiago Klein (voz e piano), concentra tudo que foi desenvolvido pelo grupo ao longo dos últimos anos, pontuando cada momento do álbum com boa dose de um ineditismo que parece ter se formado no decorrer dos últimos meses. Sombrio, mas longe de se materializar como um trabalho imoderado denso, melancólico, porém distante de um apanhado de colagens clichês, o disco segue em sua totalidade soberano, pronto para transformar a banda em um dos grandes representantes da atual safra do rock alternativo.

Construído em um ambiente instrumental à meia luz, o registro converge para seu interior a totalidade dos sons e elementos que já vinham há tempos acompanhando cada pequena composição exposta pelo grupo. Dos pianos abastecidos por dolorosas sensações ao baixo sóbrio que se revela obscuro em doses instáveis, tudo dentro do disco repassa um constante aspecto de naturalidade, de conforto, como se fosse de intento da banda nos envolver de maneira acolhedora com sua instrumentação. Isso enquanto despejam em pequenas doses românticas e sofredoras palavras que estruturam a imagem de um indivíduo tanto solitário como esperançoso, um belo retrato de um jovem adulto em seus (vários) momentos de crise.

Além do já tradicional composto instrumental que vem acompanhando a banda desde seus primeiros trabalhos, em Desconocidos há a constante busca pelo novo, com o trio se adornando de um catálogo de sons renovados, mesmo aqueles já bastante conhecidos de seu público. Na doce Quando O Mar Não Vem, por exemplo, para além das guitarras melódicas e do piano companheiro, um adorável naipe de metais segue costurando os vocais apresentados na faixa (algo que se repete posteriormente em outras composições), proporcionando certa dose de celebração aos tristes versos que pontuam a canção, isso enquanto uma nuvem de carrilhões adocicados vai se formando ao fundo da música, tornando-a ainda mais bela e envolvente.

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Ecoam ainda em diversos momentos da obra um arranjo singelo de cordas, com violoncelos estendendo sobre as faixas uma fina penumbra amargurada, séria e de extrema delicadeza. Atmosférica, Socorro é a música que melhor evidencia isso, com Praça proporcionando ainda mais destaque ao composto instrumental da canção ao apresentar um violão dedilhado que deixa escorrer um toque acalentado, profundamente romântico e uma provável herança da pequena morada do grupo em território catalão. A surpresa fica ainda por conta de Do medo ao medo, que ao flertar com uma musicalidade eletrônica – embora a banda ainda mantenha suas bases diluídas na canção – traz uma dose de novidade ainda maior ao trabalho do trio.

Se instrumentalmente o disco surpreende, mais uma vez os versos entalhados pela banda chegam portando sua beleza e sensibilidade singular, sempre dentro de uma linguagem que parece conhecida apenas pelo trio. Entre a separação, a saudade e detalhados momentos de agonia, além, claro, do já mencionado toque esperançoso, cada verso exposto ao longo do trabalho evidencia distintos e também similares personagens, indivíduos que se esbarram, se despedem e se abraçam enquanto as palavras vão se cruzando no interior das composições. Mesmo dotado de um lirismo bastante específico, cada faixa consegue agregar de maneira surpreendente uma acessibilidade volátil, com o trio desenvolvendo faixas que parecem se adequar aos mais distintos públicos.

Mesmo usando de uma temática poética constante em um sem número de trabalhos, há sempre um teor de novidade nos versos exaltados pelo Quarto Negro. Seja ao explorar a temática da saudade em Vesânia II (Delírio mútuo) – “me lembro bem um corpo em pleno retrocesso/eu ainda sinto a sua ausência/eu ainda sinto você nos meus braços” -, peculiares observações cotidianas em Perfume Solto – “se o conforto te alivia/ por que não vem morar comigo?/ e veio assim tão de repente/ hoje te espero pro jantar” – ou a dor em seu estado mais puro na música Socorro – “Diz que quando vem ela te inspira/ beija o amor pra fazer graça/ sobe e deixa a porta aberta/ pede por socorro, mas disfarça” -, tudo esbanja frescor e novidade em cada mínimo aspecto do registro.

Gravado no verão europeu de 2010, nos limites do estúdio El Tostadero – que como o próprio nome já anuncia foi montado onde antigamente funcionava um grande tostador de café -, em Barcelona, o trabalho e suas 11 composições funcionam como tudo, menos como um registro de estreia. Cada segundo dentro do álbum evidencia uma banda madura, quase uma veterana, hábil em sua desenvoltura instrumental e capaz de nos hipnotizar, comover e cativar através de sua bem estruturada coleção de versos cuidadosamente planejados. Desconocidos é sem dúvidas um registro sobre pessoas que ainda sentem, amam, sofrem e não se importam nem um pouco em deixar à mostra seus sentimentos.

Desconocidos (2011, Daruma Records)

 

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Pública, Vanguart e Pullovers
Ouça: Quando o mar não vem e Vesânia II (Delírio mútuo)

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