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Disco: “Deus Não Tem Aviões”, stella-viva

stella-viva
Brazilian/Indie/Experimental
http://www.stellaviva.com/

 

Deus não tem aviões, mas o stella-viva tem, e é justamente fazendo uso de uma sonoridade que flutua e passeia suavemente pelos ouvidos do espectador que a banda paranaense formada em 2003 lança sua estreia definitiva. Um trabalho que honra as experiências musicais ressaltadas pela música alternativa nacional do começo da década passada, mas que segue dentro de uma lógica instrumental própria. Doce, excêntrico, pop e conceitual, o disco garante pouco mais de trinta minutos de um som carregado por uma naturalidade musical que perpassa a música brasileira, corre pelo rock indie que ecoa lá fora e se encontra dentro do disco através de uma linguagem bem específica.

Inspirado pela mesma sonoridade que abrange álbuns como Bloco do Eu Sozinho do Los Hermanos ou mesmo Nadadenovo do Mombojó, a estreia da banda curitibana passa longe de soar como básica ou próxima de tantos outros similares lançamentos por conta de um fator fundamental: a experimentação. Sejam as transições minimalistas que vão se acomodando no interior do registro, as doses de um pós-rock remodelado ou mesmo pequenas sequências de uma esquizofrenia musical moderada, o apoio em um som que se desvencilha do convencional é o que traz destaque e frescor óbvio ao álbum.

É inegável que em uma primeira ou mesmo em terceiras audições Deus não tem aviões soa como um disco estranho. As melodias, mesmo adocicadas e cuidadosas em grande parte do trabalho, constantemente são assoladas por uma maré de ritmos quebrados, batidas desgarradas de uma lógica, além de mínimos detalhes que sempre afastam a banda do básico. A constante sensação de estranheza, entretanto, não impede que o disco soe difícil ou complexo de mais para ser apreciado, pelo contrário, justamente esse desequilíbrio sonoro equilibrado é o que incentiva o ouvinte a transitar por ele, buscando talvez se adequar ao emaranhado de suaves reverberações ali expostas.

Raspando de leve na neo-psicodelia que se apodera do trabalho de um sem número de artistas contemporâneos, a banda ou mais especificamente canções como Rezando pra parar de ser ingênuo, Pião e Cupidez concentram em seu interior um pequeno arsenal de guitarras, vozes, teclados, batidas e efeitos que através de uma composição totalmente excêntrica reproduzem um som inovador. Mesmo rodeado por alguns pequenos problemas técnicos – principalmente na captação demasiado suja dos vocais – o disco aos poucos abandona seu caráter “difícil” para se converter em um projeto deliciosamente estranho e melódico.

Seguindo por uma lógica sem qualquer tipo de lógica (algo que se reflete até na estranha capa do disco), o caráter excêntrico do trabalho não se mantém somente dentro da sonoridade variada que toma conta do álbum, mas também em suas letras e inclusive na maneira como os versos são anunciados. Se dividindo entre temáticas cotidianas, pequenos casos de amor e doses imoderadas de nonsense, a banda não opta em nenhum momento por estruturar seus complexos poemas musicados em uma ordem tradicional, afinal, as palavras são simplesmente arremessadas, deixando ao próprio ouvinte a escolha de como encaixá-las.

Muito embora faltem grandes hits ou quaisquer elementos de acesso que facilitem uma aproximação com um público despreparado aos experimentos musicais da banda, Deus não tem aviões transforma suas pequenas peculiaridades em um mecanismo de autopromoção. Seus versos e sua instrumentação que seguem através de uma exposição inexata podem até barrar alguns ouvintes “menos preparados”, entretanto, os poucos (ou muitos) que se entregarem ao álbum serão agraciados com uma sequência de faixas inundadas por um som despretensiosamente inovador e surpreendentemente inédito em cada nova audição.

Deus Não Tem Aviões (2011, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Nuda, Mombojó e Apanhador Só
Ouça: Rezando pra parar de ser ingênuo, João e Pião

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