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Disco: “Deus Sabe”, Ceticências

Ceticências
Nacional/Electronic/Experimental
https://www.facebook.com/Ceticencias/
http://ceticencias.bandcamp.com/

A julgar pelo excesso de projetos colaborativos de Cadu Tenório, em 2013, quando lançou Issamu Minami, o Ceticências parece ser “apenas mais um” na crescente lista de inventos assinados pelo músico carioca. Curioso perceber nas canções do recém-lançado Deus Sabe (2015, Domina), segundo registro de inéditas ao lado do parceiro Sávio de Queiroz, um completo distanciamento e explícita maturidade em relação ao mesmo material entregue há pouco mais de dois anos.

Passo além em relação ao atmosférico Lua – um dos 50 melhores discos nacionais de 2013 -, Deus Sabe talvez seja o registro mais versátil e, ainda assim, “tímido” já apresentado pela dupla. Ao mesmo tempo em que a base instrumental do disco cresce em uma solução limitada de sintetizadores, vozes e batidas eletrônicas, faixa, após faixa, Tenório e Queiroz se concentram em detalhar um mundo de texturas que instantaneamente seduzem o ouvinte.

Composição escolhida para apresentar o disco, a inaugural Deus Sabe #2 dança em um mundo de ruídos e colagens que se fragmentam lentamente. São pequenos atos instrumentais que mergulham de cabeça em elementos típicos do Hip-Hop, sons “aquáticos” e todo um catálogo de encaixes minimalistas. Uma espécie de passeio não linear que esbarra em pessoas e ambientes urbanos como o clipe da canção – produzido pelo fotógrafo Felipe Barsuglia – parece indicar.

No restante da obra, uma delicada reciclagem de ideias. Sintetizadores invadem Virtual Sunrise; bases metálicas na curtinha Medusa; experimentos sujos, por vezes perturbadores na soturna Gás. Nada que se compare ao rico acervo de ideias que sustenta Drugs & Homossexualism. São quase oito minutos em que elementos testados pela dupla no antecessor Lua dialogam com clássicos da Ambient Music, caso de Selected Ambient Works (1992), do Aphex Twin, e Endless Summer (2001), do austríaco Fennesz.

Ao mesmo tempo em que é fácil lembrar de Oneohtrix Point Never, Holly Herndon e outros gigantes do mesmo cenário, difícil ignorar a variedade de traços instrumentais que caracterizam a identidade da dupla. Sussurros anteriormente testados no último álbum solo de Tenório, o delicado Vozes (2014), além, claro, de toda a variedade de experimentos eletrônicos aplicados por Queiroz dentro do selo 40% Foda/Maneiríssimo.

Com Deus Sabe #1 como faixa de encerramento, Tenório e Queiroz criam uma obra que força o regresso do ouvinte até o começo do trabalho Mais do que um registro de improvisos, Deus Sabe se articula como um álbum de temas e encaixes precisos. Um conjunto de fórmulas explorados de maneira instável, torta, mas que em nenhum momento ultrapassa o ambiente coeso e detalhista arquitetado pela dupla.

Deus Sabe (2015, Domina)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Cadu Tenório, Aphex Twin e Oneohtrix Point Never
Ouça: Drugs & Homossexualism, Deus Sabe #2 e Virtual Sunrise