"Devotion"

Ano: 2012
Selo: Universal Island / PMR
Gênero: Soul, R&B, Pop
Para quem gosta de: Lana Del Rey e Beyoncé
Ouça: Wildest Moments, Sweet Talk e Still Love Me
Nota: 8.8

Resenha: “Devotion”, Jessie Ware

Inegável é a força de Born To Die. Estreia de Lana Del Rey, o registro esconde na variedade de sons – que vão do Hip-Hop lisérgico ao R&B Lo-Fi – uma assumida estratégia em transformar uma figura pouco carismática em um produto acessível ao grande público. Comercialmente aceito, basta uma rápida audição para perceber todos os não acertos que preenchem o trabalho, um disco que até se esforça, mas está longe de assumir as promessas feitas com o surgimento da cantora. Talvez o que Lana (ou os executivos por trás do dela) estava em busca, hoje se revela no que a inglesa Jessie Ware apresenta com o primeiro registro em carreira solo. Passeio nostálgico pelo que há de assertivo no R&B e no Soul-Pop dos anos 80/90, Devotion (2012, Universal Island/PMR) é um retrato sublime de diversas particularidades musicais e percepções estritamente confessionais da cantora, personagem que converte o álbum em uma doce e melancólica revelação sobre os próprios sentimentos.

Embora faça da devoção expressa ao longo do registro um cartão de visita ao público e aos críticos (que imediatamente se entregaram ao trabalho de Ware), há tempos a compositora circula pelo cenário musical inglês com relativo destaque. Por mais que o single Strangest Feeling (2011) tenha marcado o início da carreira da artista vinda de Brixton, foi só quando emprestou os vocais ao produtor Aaron Jerome (SBTRKT) em Right Thing to Do que a britânica de fato passou a chamar a atenção. Se o clima dançante da música tornava pública uma das faces de Jessie, ao longo do primeiro álbum particular a cantora permite que toda uma variedade de novas referências se evidencie, pontuando com acertos e acabamentos primorosos tudo aquilo que Lana Del Rey buscou explorar com o primeiro disco. Em Devotion, entretanto, a pluralidade de estilos se mistura com os sentimentos e confissões da artista, resultando em um projeto de beleza única.

Logo de cara a sequência formada pela inaugural faixa título, Wildest Moments e Running resumem com perspicácia parte do que será encontrado no restante da obra. Enquanto Devotion (a música) expõe o lado mais ponderado da cantora (e até alguns flertes com o Lo-Fi), a faixa seguinte anuncia o toque épico da obra de Ware, que apresenta com a terceira música o caráter mais pop e dançante de suas composições. Ainda que nada se repita no restante do disco, inegável é a sequência projetada por essas três faixas, com Jessie se dividindo do princípio ao fim entre músicas leves (Taking In Water e Something Inside), criações grandiosas (Night Light e Swan Song) e outras faixas intencionalmente projetadas para as pistas (Sweet Talk, 110% e Still Love Me).

Ao se transformar no objeto central da própria obra, Ware fornece subsídios para um registro construído sobre alicerces macambúzios e estranhamente atrativos. É como se ao assistirmos o desespero poético da compositora encontrássemos ali acalento para nossos próprios sofrimentos. Partindo dessa verve de confissões dolorosas, a cantora faz nascer uma sucessão de músicas que imediatamente se convertem em clássicos para os indivíduos de coração partido, algo que a saudosista Wildest Moments expõe de forma crescente, Sweet Talk incorpora de forma estranhamente dançante e Something Inside finaliza com uma candura que aconchega ao mesmo tempo em que machuca.  Ainda que assume um posicionamento capaz de atrair os ouvidos mais exigentes, Ware faz crescer um projeto de natureza simples, transformando a honestidade dos versos (e voz inegavelmente atrativa) na principal ferramenta do trabalho.

Curioso notar que a estreia de Ware surge em um momento deveras oportuno para quem se aventura pelas incontáveis texturas que definem a soul music contemporâneo. Em meio ao resgate de composições perdidas da nova-iorquina Aaliyah (morta em 2001 em um acidente de avião), a crescente expansão do R&B (com a estreia de Frank Ocean sendo a principal mostra dessa “tendência”) e a extrema popularização do Hip-Hop, a artista britânica encontra nessa frente de lançamentos um espaço próprio e consequentemente atrativo. Ora entregue aos encantos jazzísticos de Sade, ora próxima do mesmo R&B dançante proclamado por Beyoncé ao longo do disco 4 (pense em uma extensão das faixas I Miss You e Love On Top), Ware estabelece um álbum que conversa com todas as divisões do público, soando complexa e comercial na mesma intensidade.

Dentro dessa proposta dicotômica, Ware e a trinca principal de produtores que a acompanham – Dave Okumu, Kid Harpoon e Julio Bashmore – fazem nascer um disco que inicialmente prende pela versatilidade pop, mas que encanta de fato pela profundidade dos temas. Honesta e capaz de converter sentimentos dolorosos em melodias e versos acessíveis, Jessie alcança um trabalho tão grandioso quanto os cerimoniais de Florence Welch, verdadeiro em oposição a qualquer tentativa de Lana Del Rey em expor seus sentimentos e maior do que qualquer necessidade redundante de algum novo nome da cena inglesa em visitar a soul music em seus variados aspectos. Jessie Ware parece confortável (de forma até sádica) em transformar suas dores em música e tudo que ela pede em troca é a devoção do espectador.

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