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Disco: “Distância EP”, Lupe De Lupe

Lupe de Lupe
Indie Rock/Noise Pop/Shoegaze
http://lupedelupe.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Lupe de Lupe

O ruído sempre foi a base para o trabalho da mineira Lupe de Lupe. Basta um mergulho no universo soturno instalado em Sal Grosso (2012), obra de estreia do grupo, para perceber o quanto as cargas imensas de distorções flutuam com liberdade e crueza pelas faixas. Entretanto, mesmo o cenário acinzentado que define Alameda das Orquídeas ou Enquanto Pensa no Futuro, algumas das composições mais fortes da toda a obra, estão longe de igualar o mesmo esforço de desconstrução que cresce de forma incerta no recém-lançado Distância EP (2013, PopFuzz).

Sequência imediata ao jogo de experiências sujas que fecharam o último disco, o EP de seis inéditas canções encontra na imensa parede de ruídos um efeito de renovação para a estética da banda. Cada vez mais distante do senso de controle que crescia no inaugural Recreio, trabalho de 2011, o novo registro assume na fúria de seus integrantes um princípio para soterrar o espectador. São pouco mais de 20 minutos em que vozes consumidas pela melancolia amenizam a overdose escancarada de acordes invasivos, como se o ambiente soturno do disco passado fosse chacoalhado e mais uma vez posto em desordem.

Princípio para a composição da obra, À Distância da Palma da Mão, faixa de abertura do disco, traz nos vocais descompassados e guitarras inquietas a base para o estágio caótico que se expande com desigualdade por todo o álbum. Com quase cinco minutos de duração, a crua composição deixa de lado a proximidade com o Noise Pop/Shoegaze, tão explícita no disco passado, para se aproximar de forma declarada do Punk. Um cruzamento instável entre as guitarras e bateria que acelera ao fim da música, discute relacionamento com pesar e amargura que segue até a derradeira Os Dias Morrem.

Desprovido do mesmo estágio de linearidade exposto em Sal Grosso, Distância encontra em cada composição um caminho isolado a ser percorrido. Basta observar o misto de Dinosaur Jr com Nirvana em Tainá Müller, ainda na abertura da obra. Uma passeia pelos ruídos em um estádio natural perversão da própria obra da banda. Homenagem/declaração de amor à artista gaúcha de mesmo nome, a canção faz de tudo para que versos como “Faz bem saber que você é tão/ Mas tão bela que até os anjos/ Tem de ver pra crer que sua feição”, sejam ocultos pela distorção. Um afastamento em relação ao cenário proposto no último ano, quando mesmo as faixas mais sujas assumiam os vocais com limpidez – na medida do possível, claro.

Mesmo dentro do estágio de desordem intencional proposto para o EP, curioso perceber o quando a sensibilidade presente no disco passado parece ter aflorado. Mais do que discutir relacionamento e brincar de forma sombria com o amor, Distância é uma obra que observa com cuidado o indivíduo. “É tão comum viver/ Mas é melhor saber/ Que foi tudo em vão/ Os dias morrem”, derrama o vocalista na existencial Os Dias Morrem, uma das canções mais delicadas já propostas pelo grupo e em toda a produção nacional de 2013. O mesmo efeito se repete na melancólica Areia Suja, música que se divide abertamente entre o abandono e morte, essência que se expande com parcimônia em meio ao cenário caótico da banda.

Dividido entre a crueza dos sons e a sensibilidade dos versos, Distância assume no proposital desequilíbrio um exercício que aos poucos se acomoda nos ouvidos do espectador. Diferente de Sal Grosso, em que havia um lado político/social envolvido na composição de alguns dos versos, com o novo EP o indivíduo e o egoísmo ganham um destaque muito maior. Talvez por isso seja tão fácil se identificar com o trabalho, que mesmo cada vez mais distante do ouvinte (em relação ao caos sonoro que o resume), trata na confissão dos versos um efeito natural de aproximação. O mesmo senso de instabilidade que ocupa a mente de qualquer pessoa, porém, transformado de forma coerente em música.

 

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Distância EP (2013, PopFuzz)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Jair Naves, Medialunas e Nvblado
Ouça: À Distância da Palma da Mão e Os Dias Morrem