""

Ano:
Selo:
Gênero:
Para quem gosta de:
Ouça:
Nota:

Disco: “Divers”, Joanna Newsom

Joanna Newsom
Folk/Chamber Pop/Singer-Songwriter
http://www.joanna-newsom.com/

 

Se você procurar por Joanna Newsom no Google, dificilmente encontrará um site oficial atualizado ou mesmo contas em diferentes redes sociais. Músicas no Spotify? Somente raras parcerias assinadas ao lado de outros artistas – caso de Right On, do coletivo The Roots. Em entrevistas recentes, a cantora reforçou o completo desprezo pela plataforma e outros serviços de streaming. Salve a seção no site do selo Drag Music, também responsável pela publicação dos vídeos da artista no Youtube, Newsom parece viver isolada, distante da tecnologia, temas e tendências que movimentam o cenário atual.

Prova explícita desse “distanciamento” ecoa no peculiar jogo de palavras que cresce em cada novo trabalho da cantora. Termos arcaicos, não convencionais, como “hydrocephilitic”, “antediluvian” e “Tulgeywood” que acabaram se transformando em objeto de análise (ou piada) em diferentes publicações. Longe da rima fácil, do canto comercial e descomplicado, Newsom parece acomodada em um ambiente próprio, detalhando faixas que ultrapassam os 10 minutos de duração em uma montagem quase textual.

Curioso perceber que mesmo isolada, habitante de um universo tão intimista, poucos artistas atuais exercem um fascínio tão grande no público quanto Joanna Newsom. Basta perceber a infinidade de artigos, publicações e especiais lançados em diferentes veículos nos últimos meses. Se faltam caminhos “oficiais” para chegar até o trabalho da artista, sobram publicações no Reddit e vídeos (ao vivo) compartilhados pelos próprios ouvintes da cantora. Uma euforia coletiva que se sustenta na coesa execução do recém-lançado Divers (2015, Drag City).

Quarto registro de inéditas da cantora e primeiro álbum de estúdio desde o lançamento do triplo Have One On Me, de 2010, Divers sobrevive como uma obra de possibilidades. Ainda que Newsom tenha provado de arranjos experimentais no registro apresentada há cinco anos, poucas vezes antes um disco da cantora norte-americana pareceu tão instável, curioso, quanto o presente lançamento. Longe da habitual zona de conforto testada nos “florestais” The Milk-Eyed Mender (2004) e Ys (2006), Newsom parece testar os próprios limites, costurando ruídos, versos colossais e novos instrumentos em cada uma das 11 faixas da presente obra.

Acompanhada por um time de oito instrumentistas, entre eles o compositor Nico Muhly e Dave Longstreth, líder do Dirty Projectors, Newsom faz de Divers um trabalho marcado pela explosão dos arranjos e vozes. Livre da sonoridade tímida testada até o último álbum de estúdio, cada faixa se sustenta como um peça complementar na estrutura ascendente orquestrada pela musicista. Difícil escapar dos pequenos turbilhões criados em músicas como Sapokanikan, Waltz Of The 101st Lightborne e Leaving The City, esta última, uma fuga raivosa de todo o jogo de temas brandos, sempre acústicos, testados pela artista desde o começo da década passada. Sobram passagens pelo cancioneiro norte-americano (Same Old Man), faixas que estreitam a relação com a música da década de 1970 (You Will Not Take My Heart Alive) e até pequenos exercícios vocais, marca da “operística” A Pin-Light Bent.

Em um curioso jogo de referências, Newsom lentamente parece conduzir o ouvinte para fora do ambiente arquitetado desde a estreia com The Milk-Eyed Mender. Sem necessariamente romper com os últimos trabalhos de estúdio – vide o dedilhado tímido da faixa-título -, a cantora mergulha em um mundo infinito de possibilidades, vozes e ritmos, fragmentando dos últimos inventos autorais em porções que parecem delicadamente dissolvidas ao longo de toda a obra.

 

Divers (2015, Drag City)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Julia Holter, Kate Bush e Sufjan Stevens
Ouça: Sapokanikan, Leaving The City e Drivers


One thought on “Disco: “Divers”, Joanna Newsom

Comments are closed.