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Disco: “Dorgas”, Dorgas

Dorgas
Experumental/Indie/Psychedelic
https://www.facebook.com/dorgasbanda

 

Por: Cleber Facchi

Dorgas

Existe uma medida constante de ironia e genialidade que abastece o trabalho do Dorgas desde os primeiros lançamentos. Entretanto, paralelo aos inventos do grupo cresce uma necessidade ainda maior, capaz de organizar e alinhar estes dois elementos dentro de um propósito único: A transformação. A julgar pelo caminho torto assumido desde a chegada de Verdeja EP (2010), cada novo registro entregue pelo quarteto carioca parece amortecido pelo ensaio lisérgico-experimental que decide os rumos e imperfeições calculadas de cada canção. Um posicionamento sempre excêntrico, que brinca com os sons, versos e até mesmo imagens naquilo que orienta agora toda a construção do recém-lançado primeiro álbum do grupo.

Ponto final e ainda início de tudo o que o quarteto – Cassius Augusto (voz e baixo), Eduardo Verdeja (guitarra, baixo), Gabriel Guerra (voz, teclados) e Lucas Freire (bateria, percussão) – vem projetando desde o começo da carreira, o autointitulado disco traz de volta marcas características que alimentaram a banda nos últimos quatro anos – sempre com um toque óbvio de novidade. Do primeiro EP restaram apenas as bases densas de guitarras e os sintetizadores climáticos, trazendo no exercício dos singles Grangongon e Loxhanxha (ambos de 2011) a maior parte dos elementos que parecem reaproveitados pelo álbum. Todavia, a necessidade da banda em perverter a própria identidade é ainda maior, o que acaba sustentando a mutabilidade da obra de nove faixas, fazendo com que o álbum cresça como um tratado que se desfaz e reconstrói em segundos.

Se ao final de 2011 a banda soava como Hermeto Pascoal fumando maconha com Miles Davis ao som de Mirrored do Battles, hoje os requintes são outros. A verve jazzística ainda preenche cada instante do trabalho, indo de Vice-Homem ao encerramento doloroso de Viratouro, contudo, os propósitos lírico e instrumental do quarteto é movido por necessidades específicas a cada faixa. A julgar pela presença ativa dos sintetizadores e o preciosismo atmosférico que prolifera em Egocêntrica e Bósforo, uma versão tupiniquim do que alimenta a Chillwave norte-americana talvez seja a melhor representação para a presente fase do grupo. Porém, assim como resumir Salisme e Ostóquix do primeiro EP como um “simples” Dream Pop parecia um erro, o mesmo se repete durante toda a extensão do presente álbum.


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Tão logo o disco tem início, a banda possibilita o crescimento de um imenso e complexo labirinto instrumental. Ainda que boa parte da obra se concentre em cima de referências claras à Marcos Valle, Jards Macalé e até Guilherme Arantes, além de representantes específicos do Krautrock durante parte da década de 1970, à medida que o álbum cresce, a verdadeira identidade do grupo se constrói. Parte nítida disso está na maneira como os vocais são curiosamente e irritantemente explorados. Longe de assumir o mesmo posicionamento impecável que poderia orientar qualquer outro grupo, nas mãos do quarteto (e principalmente de Gabriel Guerra) a voz se faz um instrumento. São pequenos condimentos excêntricos para a tapeçaria que a banda desenvolve pela obra. Um suspiro (Vander) ou um refrão preciso (Faisão Dourado) que se altera de acordo com o ondulado instrumental imposto pela banda. A voz nunca é o todo, apenas mais um acréscimo.

Situado em uma orquestração instável e pouco comercial, a estreia do Dorgas lentamente rompe com o anti-pop que parecia assumido nos singles anteriores. Basta a crescente dançante de Hortência ou a melancolia crepuscular que conduz Viratouro para perceber a manifestação de realces pop e até radiofônicos por todo o álbum. São acordes caricatos que se manifestam vez ou outra, ou mesmo versos quase evidentes em pontos chave da obra, uma completa desarticulação no que era ostentado em Loxhanxha ou mesmo nos primórdios da banda com Bruff. Claro que a ambientação pós-rock de Campus Elysium e a completa inexatidão de Patricinha Ingrata ainda decidem parte fundamental da obra, afinal, uma possível zona de conforto é algo que parece simplesmente impensável dentro do trabalho do grupo – ao menos por enquanto.

Mesmo que o quarteto pareça se fechar em um ambiente hermético e limitador, à medida que o disco se desenvolve a imensidão de percursos rompe de forma natural com os possíveis erros da banda. Por vezes tímido perante o grandiosismo e a maturidade expostos em Fez-Se Cristo e outras faixas anteriores ao presente álbum, com o primeiro disco o Dorgas faz de cada canção um exercício de descoberta própria. Ao mesmo tempo em que encerra um capítulo importante que teve início em Verdeja, a banda parece inclinada a alimentar um novo percurso sonoro, ainda mais complexo. Assim, não há piso ou mesmo paredes que sustentem o ouvinte dento do cenário proposto pelo quarteto, tornando o espectador apenas uma peça no jogo perturbador e sempre atrativo que o grupo insiste em maquinar a cada música.

 

Dorgas

Dorgas (2013, Vice)


Nota: 8.6
Para quem gosta de: doo doo doo, Mahmundi e Inverness
Ouça: Campus Elysium, Hortência e Viartouro

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