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Disco: “Emily’s D+Evolution”, Esperanza Spalding

Esperanza Spalding
Jazz/Alternative/Soul
http://www.esperanzaspalding.com/

 

Da estreia com o intimista Junjo (2006), passando pelo lançamento de obras como Esperanza (2008), Chamber Music Society (2010) e até a tentativa de parecer “acessível” com a entrega do comercial Radio Music Society (2012), Esperanza Spalding passou a última década tentando encontrar a própria identidade musical. Curioso perceber nas canções do intenso Emily’s D+Evolution (2016, Concord), trabalho que mais se distancia da discografia da cantora, o explícito fortalecimento de uma criativa assinatura autoral.

Vozes e guitarras descontroladas em Good Lava, o suspiro romântico em Unconditional Love, arranjos que crescem e encolhem a todo minuto no interior de Earth to Heaven, a leveza que orienta arranjos e versos na doce Noble Nobles. Durante pouco mais de 45 minutos, tempo de duração da obra, Spalding não apenas derruba todas as pontes para os últimos trabalhos de estúdio, como perverte a essência do presente registro. Uma constante alteração que define os rumos da obra até o acorde final da instável I Want It Now.

De um lado, a voz flexível de Spalding, estímulo para o nascimento de composições como Rest In Pleasure e Elevate Or Operate; músicas que transformam o canto da norte-americana em um instrumento poderoso. No outro oposto, as guitarras. Nunca antes um registro da musicista valorizou tanto os acordes distorcidos como o presente trabalho. Perceba o ondulado crescente em Earth to Heaven ou a forma como o instrumento bagunça a cabeça do ouvinte no interior da nostálgica One, faixa que instantaneamente transporta o ouvinte para o passado.

Ancorado de forma explícita nos anos 1960/1970, Emily’s D+Evolution vai do experimentalismo jazzístico ao prog-funk em uma linguagem essencialmente acessível, pop como Unconditional Love e Judas indicam. Uma constante sensação de que PJ Harvey dos clássico Dry (1992) e Rid of Me (1993) esbarrou na obra de veteranos como Jimi Hendrix e Sly & the Family Stone. Se em Junjo Spalding parecia se esconder atrás do imenso contrabaixo utilizado nas apresentações ao vivo, hoje a cantora cresce, surge como uma gigante que ocupa todos os espaços da obra.

Nos verso, a mesma estrutura catártica que serve de base para a construção dos arranjos. Letras que discutem a dicotomia da sociedade de maneira sóbria (“Reis morreram rodeado em ouro / Escravos morrem consolados”), se afogam em temas sentimentais (“Basta-nos viver o amor incondicional”) e ainda mergulham em temas políticos/sociais (“Eu quero quebrar as regras com você / E ver o sonho realidade”) com a mesma força de To Pimp a Butterfly (2015), do rapper Kendrick Lamar, e outros trabalhos recentes.

Com produção assinada pelo veterano Tony Visconti, parceiro de longa data de David Bowie, Emily’s D+Evolution está longe de ser um novo capítulo dentro da discografia da cantora norte-americano. Trata-se de um ato isolado, uma espécie de recomeço quando voltamos os ouvidos para o trabalho da musicista até o lançamento do antecessor Radio Music Society. Vozes, arranjos e versos que indicam o nascimento de uma artista completamente nova, conceito escancarado logo no título da obra, uma representação da “personagem real” que é Esperanza Emily Spalding.

 

Emily’s D+Evolution (2016, Concord)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Erykah Badu, Janelle Monáe e Kendrick Lamar
Ouça: One, Good Lava e Earth to Heaven

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