Disco: “Err EP”, DESAMPA

DESAMPA
Brazilian/Singer-Songwriter/Electronic
https://soundcloud.com/desampa

Por: Cleber Facchi

DESAMPA

São Paulo é a base para o trabalho do mascarado e ainda anônimo responsável pelo projeto DESAMPA. Da melancolia que desaba de forma dolorosa sobre cada verso que se relaciona com a cidade cinza, ao uso controlado da eletrônica que inevitavelmente tendem ao sombrio, tudo se manifesta como um recorte particular de quem trilha solitário a noite de qualquer centro urbano. Rodeado por sentimentos que a todo o instante se relacionam com o soturno, o misterioso artistas rompe com o ambiente claustrofóbico fabricado nos quase 20 minutos de Err EP (2013, Independente) para reproduzir um trabalho que vai além dos próprios limites, afinal, a dor expressa nos seis compostos que se acomodam pela obra vão além de qualquer marca territorial.

De natureza sensível e instrumentação sempre controlada – nada além de pianos, sintetizadores e programações eletrônicas -, o álbum estabelece uma curiosa atmosfera de dor e melancolia, reflexo das letras sempre amarguradas que o compositor distribui ao longo do disco. Ora próximo de uma versão eletrônica do que Thigo Pethit alcançou com Berlim, Texas (2010), ora se manifestando como uma versão menos sintética e experimental do primeiro álbum de James Blake, DESAMPA deixa correr um registro que se acomoda aos poucos, como se fluísse dentro de uma medida de tempo particular. Há beleza para ser absorvida logo em uma inicial audição, mas é ao fechar os olhos e se acomodar no cenário em preto e branco que o artista pinta que o registro de fato se revela.

DESAMPA

Se por um lado Streets Of Soul e Life deixam fluir a grandeza do registro, brincando com as melodias ascendentes, por outro lado as iniciais composições tornam claros os pequenos deslizes que se acumulam no decorrer da obra. Ruídos provenientes de uma captação caseira e pequenos exageros (como a desafinação em Life), estabelecem certa incompatibilidade com a sonoridade límpida que é edificada faixa após faixa. Um resultado que inevitavelmente manifesta um acabamento cru, mas que poderia facilmente ser resolvido com o uso de autotune ou outras maquiagens vocais, preferências eletrônicas que naturalmente passeiam pela obra e de forma alguma tirariam o mérito de DESAMPA.  

Mesmo os deslizes não conseguem desmerecer a força do álbum, que se envolve de maneira aberta com a fase recente da produção eletrônica, esbarrando vez ou outra em James Blake e até Nicolas Jaar. Entretanto, DESAMPA é um projeto que vai além do presente. Basta uma rápida passagem pela sobreposição de pianos e batidas comportadas de Mindark para perceber uma forte relação com a produção musical da década de 1990. Se por um lado a relação entre as harmonias e os vocais sóbrios resultam em uma versão recente do Radiohead da fase OK Computer, os pequenos encaixes sintéticos manifestam um toque íntimo de Portishead, principalmente do álbum homônimo lançado em 1997.

Transitando por diferente cenários musicais, DESAMPA em nenhum momento se afasta da comoção e do encontro de um som próprio. Ainda que a semelhança com outros projetos antigos e recentes estejam diluídos ao passar do disco, a brincadeira sombria entre vozes e pianos se estabiliza como uma marca criativa, um prelúdio de uma carreira que pode mergulhar ainda mais na dor e na proposta sombria que busca incorporar ao longo dessas curtas, porém eficientes composições.

 

DESAMPA
Err EP (2013, Independente)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Thiago Pethit, James Blake e Portishead
Ouça: Mindark e Streets Of Soul
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