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Disco: “Estado de Nuvem”, Bruno Souto

Bruno Souto
Brazilian/Alternative/Indie
http://www.brunosouto.com/

Bruno Souto

Os anos de Bruno Souto à frente da Volver garantiram ao músico pernambucano uma noção ampliada de melodia e versos marcados pela confissão. Não por acaso, ao apresentar o melancólico Estado de Nuvem (2013, Independente), primeiro registro em carreira solo, todos esses elementos conquistados no decorrer da última década não apenas parecem servir como base para o trabalho do cantor, como ecoam aprimorados. Brega e pop, o álbum se desmancha em um jogo de experiências particulares, faixas que até tentam falar sobre o amor em um sentido de descoberta, mas inevitavelmente percorrem os trilhos amargos da saudade.

Não importa o meu castigo/Quero ser o teu brinquedo”. Os versos instalados na intensa Dentro, segunda canção do disco, definem com beleza (e certa dose de crueldade) toda a estética que marca a recente obra. Como se soubesse exatamente onde está pisando, Souto se deixa corromper por um jogo doloroso e romântico, faixas que esbarram na mesma estrutura confessional-brega da década de 1970 (já refinada pelo Volver), mas em um arranjo ainda mais próximo do comercial. Saudade, partida, abandono e a busca constante por esse conceito orquestram com preciosidade cada verso derramado pelo cantor. A dor é apenas um estímulo.

Longe de tropeçar em uma obra marcada pelo exagero, Souto, mesmo próximo do desespero, consolida um trabalho esculpido com precisão e músicas voláteis. Parte desse enquadramento vem da constante interferência de vozes, instrumentistas e gêneros que tiram o cantor de uma provável zona de conforto ou melancolia desgastante. Cercado por Fábio Góes, Guilherme Mendonça (Guizado), Luz Marina e Regis Damasceno (Cidadão Instigado), que ainda assina a produção da obra, o pernambucano encontra na interferência um efeito de expansão. É como se a dor, ao encontrar a manifestação dos convidados, fosse encarada de forma partilhada, parte natural de qualquer indivíduo.

Enquanto Guizado assume presença na leveza de Cansaço, faixa que flerta com o Reggae em um exercício controlado, a também convidada para a canção, Julia Valiengo, pontua com leveza a construção da música, derramando os vocais em um detalhamento quase imperceptível. Fábio Góes, por sua vez, aparece ao fundo de Aurora, complementando o já volumoso coro de vozes da canção. O destaque, entretanto, fica aos comandos da cantora Luz Marina, que ao surgir em Por quê?, firma um delicado contraste aos vocais de Souto. Isso sem contar no grupo de instrumentisas e na figura presente de Damasceno, que auxiliam o cantor tanto nos instantes de desespero, como nos momentos de maior exaltação.

Como se a melancolia fosse expandindo no decorrer da obra, Souto e o principal parceiro de composição, João Eduardo Vasconcelos, costuram os versos em uma ordem exata. Enquanto os minutos iniciais do álbum tentam manipular um lado mais “esperançoso” do trabalho, algo que os acordes e versos da faixa-título representam, com a apresentação de Se Você Quiser, o desespero do cantor é claro e passa a ser constante. “Me deixa ter a chave pra que eu possa abrir/ Teu coração”, derrama Souto em um dos instantes mais dolorosos de toda a obra. Um princípio que segue até quando o cantor esbarra no alicerce pop de Dance, música que carrega a dor como um complemento evidente, apenas fantasiado por riffs plásticos e o ritmo acessível.

Herdando conceitos que esbarram de forma evidente na obra de Odair José e Erasmo Carlos, Souto, longe dos “limites” da Volver, parece livre para criar. O efeito melódico que se instala na obra garante ao ouvinte um catálogo inevitável de hits. São faixas como Aurora e Avesso que mesmo impregnadas pela dor, flutuam em uma medida confortável de palavras e sons, prova de que o pop ou mesmo os velhos temas de pós-relacionamento só precisam do enquadramento certo para fazer sentido.

 

Bruno Souto

Estado de Nuvem (2013, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Pélico, Volver e Bárbara Eugênia
Ouça: Se você Quiser, Aurora e Por Quê?