Disco: “Estratosférica”, Gal Costa

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Gal Costa
MPB/Female Vocalists/Samba
http://www.galcosta.com.br/

A necessidade de ruptura e parcial transformação está longe de parecer uma novidade dentro da (extensa) obra de Gal Costa. Do habitual cruzamento de ritmos – Bossa Nova, Jazz, Samba, Rock, – ao constante diálogo com músicos, compositores e produtores vindos de diferentes gerações – Luiz Melodia, Djavan, Cazuza, Domenico Lancellotti -, de tempos em tempos, a cantora baiana entrega ao público um registro que parece não apenas indicar uma nova direção, mudando o curso da própria discografia, como ainda serve de síntese temática, revelando ao grande público o nascimento de novas cenas e pequenos coletivos musicais.

É o caso do recente Estratosférica (2015, Sony Music). Dando continuidade ao trabalho iniciado no álbum Hoje (2005) – obra marcada pela interferência de novos compositores como Nuno Ramos, Junio Barreto e Moreno Veloso -, dentro do trigésimo sexto registro em estúdio da cantora, é possível perceber o crescimento de uma obra que clama por novas referências, sonoridades e tendências, porém, mantém firme a experiência (e sobriedade) acumulada por Gal mais 50 anos de carreira.

Para aqueles que se assustaram com a curva brusca iniciada no experimental Recanto (2011) – obra de temas eletrônicos e versos assinados pelo parceiro de longa data, Caetano Veloso -, um respiro “aliviado”. Ainda que a essência do trabalho anterior seja preservada em instantes específicos do álbum – como nos arranjos de Você Me Deu e Por Baixo -, da abertura ao fechamento, a proposta do registro é completamente outra, muito mais intensa. Antes reclusa, confortada no “recanto” sintético das batidas e arranjos eletrônicos, Gal agora aparece grandiosa, para além dos limites da estratosfera, uma leoa como o cabelo volumoso parece indicar logo na capa do álbum.

Diálogo aberto com pequenos gigantes da atual geração – entre eles, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e José Paes Lira -, o registro produzido Alexandre Kassin e Moreno Veloso é um passeio pela essência versátil da cantora. Enquanto a inaugural Sem Medo Nem Esperança aponta para a boa fase no começo dos anos 1970, marca explícita na crueza das guitarras e o “solo de voz” típico do clássico Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (1971), em minutos, o uso de temas eletrônicos (Muita Sorte) e até melodias mais “pop” (Quando Você Olha Pra Ela) confortam a artista no cenário plastificado dos anos 2000.

De cara, o grito forte (“Não sou mais tola / Não mais me queixo / Não tenho medo / Nem esperança”) e a ânsia pela própria renovação (“Nada do que fiz / Por mais feliz / Está à altura / Do que há por fazer”) de Sem Medo Nem Esperança. No interior do trabalho, faixas que poderiam ser encaixadas em obras da década de 1980 (Jabitacá) ou mesmo na fase tropicalista (Anuviar) da cantora. Sobra até espaço para a exposição da própria sexualidade em Por Baixo (“E por baixo dos pelos: as estradas / Que conduzem nos fios os teus arrepios / Manifestos em ois! E uis! E ais!”), um fino retrato da poesia versátil de Tom Zé.

Confortada em um continuo jogo de libertação e confissões sentimentais, curioso perceber como Gal, mesmo interprete de diferentes artistas e personagens, assume o controle dos versos, cantando sobre si mesma no decorrer da obra. Efeito dessa natural “exposição” parece nascer da maior interferência de mulheres na construção das canções. Céu na faixa-título, Thalma de Freitas em Ecstasy e até Marisa Monte nos versos doces de Amor, Se Acalme – “presente” dividido com o parceiro Arnaldo Antunes. Mesmo a “novata” Mallu Magalhães, autora do sambinha pop Quando Você Olha Pra Ela, garante uma faixa próxima dos conceitos (e sentimentos) da cantora, ainda íntima do som leve exaltados dentro dos primeiros trabalhos em estúdio, porém, cada vez mais próxima da atual geração de ouvintes.

Estratosférica (2015, Sony Music)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Céu, Marisa Monte e Mallu Magalhães
Ouça: Sem Medo Nem Esperança, Quando Você Olha Pra Ela e Por Baixo

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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