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Disco: “Etnopop”, Mohandas

Mohandas
Brazilian/Experimental/Indie Pop
http://mohandas.com.br/

Por: Cleber Facchi

Mohandas

Desde que brincar com os ritmos tropicais se transformou em uma necessidade para grande parte das novas bandas – independentes ou não -, o exagero nas formas sonoras tem se revelado como o maior desafio em grande parte dos projetos recém-lançados. São raros os casos em que tudo não passa de um descompromisso cômico e exagerado, como se o simples ato de acrescentar doses desmedidas de Carimbó, Axé, Technobrega ou qualquer outro ritmo oriundo do norte ou de fora do país fosse o suficiente. Distinta, porém, é a estratégia aplicada pela banda carioca Mohandas, grupo que se afasta do mero “complemento” regional no decorrer do primeiro álbum, transformando tais experiências nas bases para o curioso Etnopop.

Incapaz de se firmar em um único estilo ou sonoridade específica de maneira intencional, o sexteto composto por Bel Baroni, Diogo Jobim, Dudu Lacerda, Micael Amarante, Nana Orlandi e Pedro Rondon utiliza de cada nova faixa como um ponto de visita para um som diferente. Plural, o álbum se desdobra em múltiplas cores, ritmos e preferências que mesmo distintas se completam ao final. Se em determinado instante o grupo entrega aos realces da música colombiana – proposta retratada de maneira coerente na instrumental Cumbia -, na faixa seguinte temos uma quebra dessa preferência, com um novo rumo sendo aplicado ao projeto.

Quando brinca de ser “rock”, como nos versos bem humorados (e simples) de Monkey Dance, segunda música do álbum, a herança de grupos veteranos como Talking Heads surge rápida. Das métricas leves aos acertos acolhedores dos teclados, tudo remete aos primórdios do grupo de David Byrne, que ainda surge no synthpop bizarro de George Clooney e principalmente em Take a shower. Rápida e apoiada na redundância dos versos, a canção puxa o grupo para o lado menos étnico do álbum, se prontificando de maneira criativa como um genuíno produto pop – provavelmente o que teria acontecido se o debut do Copacabana Club ou o novo disco do Holger tivessem dado certo.

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Para além das diferentes referências instrumentais, Etnopop acerta por transitar por diferentes idiomas – alguns deles impossíveis de serem traduzidos. Ótimo exemplo dessa multiplicidade está na construção da extensa Rasul (Milagreiro). Com mais de oito minutos de duração, a faixa abre em meio a vozes que se prontificam como mantras, uma espécie de aquecimento para que a canção assuma um resultado linear, construindo a entrada de Milagreiro – clássico de Djavan -, logo em sequência sendo substituída por novos versos em inglês. Essa constante quebra nas palavras (por vezes acrescidas de onomatopeias e frases de clara proposta musical) flui como um tempero extra ao álbum, que parece pensado para os mais distintos públicos.

Mantendo na experimentação a base para conduzir grande parte do álbum, em pontos estratégicos da obra é visível a preferência do sexteto pela incorporação de um som menos amplo e confortavelmente simplista. Djeredjere, por exemplo, não difere muito do que caracteriza boa parte da nova MPB, lembrando em alguns instantes uma Adriana Calcanhotto menos sonolenta e mais tribal. Já Fidalgo traz à tona outro lado do grupo, que ao passear por um campo de sonorizações leves deixa escorrer um composto acessível, bastante similar ao indie pop ameno de diversos grupos suecos.

Sem se apegar a um ritmo em específico – ao mesmo tempo em que se torna íntimo de vários deles -, Etnopop cumpre de maneira assertiva com a mensagem que carrega no título. Pop e experimental em uma divisão exata, o registro de caráter grandioso em conceitos parece pensado para brilhar ao vivo. Da percussão crescente aos vocais pensados em coro, cada fração do registro flui orientada aos palcos, medida que em nenhum momento prejudica o rendimento das composições em estúdio. Faixas capazes de revelar acertos inéditos e referências raras em cada nova audição.

Mohandas

Etnopop (2012, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Wado, Do Amor e Felipe Cordeiro
Ouça: Djeredjere, Rasul (Milagreiro) e Monkey Dance

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