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Disco: “Everyday Robots”, Damon Albarn

Damon Albarn
British/Alternative/Electronic
http://www.damonalbarnmusic.com/

Por: Cleber Facchi

Damon Albarn

Engrenagens, versos cíclicos e arranjos tratados de forma matemática. No universo mecânico de Everyday Robots (2014, XL), estreia solo de Damon Albarn, todas as experiências líricas e músicas se organizam em uma arquitetura sintética, o que não quer dizer que as impressões humanas de seu criador sejam postas de lado. Pontualmente sofredor e desenvolvido em uma atmosfera branda, o registro é uma completa desconstrução de grande parte dos inventos assinados pelo britânico em quase três décadas de carreira. Uma obra que se esquiva da fluência grandiosa do Blur ou do ritmo dançante imposto pelo Gorillaz para revelar a (real) essência de um dos compositores mais influentes da musica recente.

Dissolvido em uma atmosfera de evidente precisão, o “debut” usa do minimalismo condensado nas batidas eletrônicas e arranjos de forma a acolher o espectador. Se há 11 anos, quando apresentou Think Tank (2003), último trabalho em estúdio com o Blur, tudo o que Albarn buscava era uma sonoridade suja, caótica por vezes, hoje pouco disso parece ter sobrevivido. Mesmo que os samples e beats esbarrem na discografia “fictícia” do Gorillaz, cada passo dado dentro do novo registro é assumido com distanciamento. Esqueça The Good, the Bad & the Queen, diga adeus ao Britpop e qualquer invento prévio do cantor: Everyday Robots é a passagem para um novo universo.

Naturalmente metafórico, o disco condensa uma série de experiências cotidianas tratadas de forma redundante, como se Albarn e o próprio ouvinte fossem encarados como máquinas. Amor, separação, isolamento e melancolia. Experiências humanas, mas tão comuns e frias, que mais parecem programas implantados em nossas mentes. “Somos robôs diários e controlados/ No processo de sermos vendidos/ Dirigindo carros adjacentes/ Até pressionar ‘restart’“, tendo nos versos da inaugural faixa-título uma passagem para o trabalho, o músico pode até estabelecer um conjunto previsível de experiências, o que não quer dizer que o álbum esteja longe de revelar ao ouvinte um catálogo de pequenas surpresas.

Do momento em que tem início até o último instante, cada experiência musical ressaltada por Albarn estabelece uma estranha atmosfera de acolhimento. Reflexo natural da previsibilidade dos temas ou dos versos amarrados em um contexto de regresso, canções como Lonely Press Play, The Selfish Giant e Heavy Seas of Love fazem do “óbvio” um passo para o ineditismo. São os mesmos versos tristes assinados e patenteados pela industria da música há décadas, porém, encarados em um ambiente tão delicado e simples que a fuga ou a ausência de imersão são completamente impossíveis. Damon canta sobre ele, mas também sobre qualquer personagem triste que passeia por entre ambientes urbanos e acinzentados.

Desenvolvido entre Londres e Nova York, Everyday Robots usa dessa divisão territorial como um estímulo para as bases das canções. De um lado está o britânico Brian Eno, veterano que usa das relações com a Ambient Music de forma a orquestrar a direção do trabalho – presença evidente nas sentimentais You and Me e Heavy Seas of Love, herdeiras do clássico Before and After Science (1977). No outro oposto surge Richard Russell, colaborador de longa data de Albarn e produtor que resgata boa parte das experiências lançadas em I’m New Here (2010) de Gil-Scott Heron e The Bravest Man in the Universe (2012) de Bobby Womack, registro produzidos em parceria com Demon. Um meio termo (constante) entre a música negra e as imposições silenciosas que revelaram o lado atmosférico da música pop nos anos 1970.

Parte humano, parte robô – como alerta nas batidas do coração em Lonely Press Play -, a estreia solo de Damon Albarn é uma obra de imersão. São composições abastecidas por ruídos precisos e que praticamente se quebram ao longo do trabalho. Instantes de evidente fragilidade, como se o universo particular (e compartilhado) lançado pelo músico fosse tratado com parcimônia em um exercício de oposição ao caos diário. Nada além de olhar simples e tímido ao que muitas vezes passa despercebido nos passos mecânicos e quase cegos diariamente.

 

Damon Albarn

Everyday Robots (2014, XL)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: James Blake, Brian Eno e Atoms for Peace
Ouça: Heavy Seas of Love, You & Me e Lonely Press Play


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