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Disco: “Eye Contact”, Gang Gang Dance

Gang Gang Dance
Experimental/Avant-Garde/Electronic
http://www.myspace.com/ganggangdance

Por: Cleber Facchi

Houve um tempo em que o Gang Gang Dance poderia ser considerado como um grupo de Avant-Garde até mesmo dentro do seleto grupo de bandas e artistas experimentais. A ausência de ritmos bem definidos, sons que se dividiam entre a música ambiente e o noise, programações eletrônicas aplicadas de maneira assíncrona, além dos vocais (quando existentes) trabalhados de maneira inconstante, se dividindo entre o canto e o ruidoso. A aproximação mais do que natural com a música pop fez com que aos poucos o quinteto do Brooklyn mudasse suas formas, sem perder, entretanto, toda sua expertise e fluência própria.

A busca por um som mais acessível foi construída aos poucos, com o grupo gradativamente se entregando a tonalidades mais pop, menos complexas, mas nem por isso menos inspiradas. O marco dessa aproximação com um som melódico veio em 2008, através do lançamento de Saint Dymphna, em que ao longo de quarenta minutos os nova-iorquinos davam vida a faixas como First Comuunion, adornadas por um ritmo dançante e descomplicado. Com Eye Contact (2011) a banda até tenta restabelecer o elo com os sons de outrora, mesmo que as pendências com um ritmo mais fácil ainda marquem presença.

Como se filtrassem aqueles que descobriram a banda por seus resultados mais acessíveis, Glass Jar abre o trabalho com uma sucessão de texturas entrelaçadas, vocais confusos, samplers diversificados e tudo ao longo de onze minutos, que em determinados momentos quase beiram o sonolento. A canção, que transita dentro de um ambiente totalmente etéreo soa como algo distinto de boa parte do que o quinteto – Liz Bougatsos, Brian Degraw, Tim Dewit, Josh Diamond e Jesse Lee – já tenha desenvolvido. Mas como dito, a extenuante faixa de abertura é uma grande provação, para que o ouro só seja entregue na sequência.

Passada a primeira das três vinhetas que encontraremos ao longo do disco, temos finalmente a primeira recompensa: Adult Goth. Os efeitos percussivos que tomavam conta dos anteriores álbuns finalmente aparecem confortavelmente assentados em uma cama de sintetizadores, em que os vocais de Bougatsos vão nos guiando dentro de um panorama psicodélico, mas ainda assim conciso. Mais do que nunca as referências à World Music marcam presença no atual registro, seja pela semelhança com os ritmos árabes (e alguns toques de afrobeat) ou pela maneira como a faixa é trabalhada, lembrando uma espécie de ritual pagão futurístico.

[youtube:http://www.youtube.com/watch?v=2R7k1_kOqvk?rol=0]

Dando continuidade ao mesmo tipo de som, os nova-iorquinos soltam Chinese High, momento em que a sonoridade pop mais uma vez se apresenta como elemento de destaque, soando como uma M.I.A. afundada em sintetizadores ou um Animal Collective menos espesso de texturas. Os vocais de Liz surgem como se fosse um instrumento de destaque, sobrepondo-se as bases edificadas pro teclados despontando certa nostalgia oitentista. Similar, Mindkilla (primeiro single do disco) se apresenta como a canção menos complexa do trabalho, abrindo espaço para que uma temática mais dançante acabe se apresentando.

Uma nova vinheta (dessa vez menos trabalhada como um mero recorte de sons) e chegamos a Romance Layers. Com a participação de Alexis Taylor do Hot Chip, a faixa se mostra como mais uma pequena ode aos anos 80, seja pelos visíveis toques de musica soul ou pelos sintetizadores vintage, sempre reverberando os regionalismos da World Music. Diferente das demais canções, essa é a faixa em que se torna mais visível a presença de outros instrumentos, como o baixo bem direcionado e as guitarras marcadas por um suingue peculiar.

Ainda dando vazão a um tipo de som marcado pelo pop chega Sacer, faixa em que mais uma vez os sintetizadores aparecem em segundo plano e até os sempre modulados vocais de Bougatsos surgem de forma mais límpida. Última vinheta e chega o desfecho com Thru and Thru. Perceptivelmente inspirada pelos ritmos árabes, a canção se divide entre a percussão construída de maneira eletrônica e a chuva de sintetizadores inspirados, em que se ater aos detalhes resulta na constante descoberta de inúmeras tonalidades ao longo da canção. Os toques de música tribal e perceptíveis picos de noise dão ao trabalho um fechamento mais do coerente, com a banda soando similar ao experimentalismo vanguardista alcançado nos dois primeiros álbuns da carreira.

Com produção de Chris Coady, que já havia trabalhado com o quinteto no disco anterior e no EP RAWWAR de 2007 (além de ter produzido os trabalhos de Yeah Yeah Yeahs, Zola Jesus e Beach House), Eye Contact pode não ser o melhor disco da banda até agora (Saint Dymphna e God’s Money ainda se sobressaem), mas mantém inabalável a carreira do grupo nova-iorquino. Dando seguimento a um experimentalismo pop e ainda passeando por alguns ecos de esquisitices instrumentais do passado, o Gang Gang Dance prova que do seu borbulhante caldeirão ainda se mantém quente e capaz de proporcionar caldos sonoros da mais pura criatividade.

Eye Contact (2011)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Animal Collective, High Places e Rainbow Arabia
Ouça: Mindkilla


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