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Disco: “Fábrica”, Fábrica

Fábrica
Brazilian/Indie/Alternative
http://www.fabricaoficial.com.br/

Por: Cleber Facchi

Vai existir um tempo em que será possível escrever sobre uma nova banda nacional sem esbarrar em involuntárias menções ao trabalho da temporariamente extinta Los Hermanos. Por enquanto, Ventura, Bloco do Eu Sozinho e até o amargurado 4 seguem influenciando um sem número de jovens e até veteranos artistas, grupos como a recém-formada Fábrica, banda carioca que utiliza dos ensinamentos da conterrânea como base para a própria transformação. Sem fugir do samba, e jamais arriscando no rock, o quinteto converte cada faixa do autointitulado primeiro disco em um jogo de leveza que mesmo atrasado e pouco inventivo, deve fisgar o ouvinte passageiro.

Rodeado por uma sonoridade branda que se estende da primeira à última faixa, em Fábrica (o disco), temos o encontro de cinco artistas que recheiam algumas das mais interessantes bandas do atual cenário carioca. Enquanto Gabriel Feitosa e Lucas Alves dividem os trabalhos com a Stereomob, Emygdio Costa e Ricardo Gameiro fogem do cerne ruidoso e sombrio do Sobre A Maquina, tendo na presença do produtor Igor Ferreira um complemento ao diversificado grupo. Artistas musicalmente contrastados em seus projetos paralelos, mas aqui íntimos e conscientes da mesma proposta instrumental.

Logo na abertura do álbum com o desenvolvimento de O que é que o samba tem?, a banda deixa claras todas as intenções a serem aprimoradas posteriormente. Estabelecendo uma ponte quase copiosa com a faixa de abertura do hoje clássico Ventura, Samba a Dois, a canção traz na leveza e no encaixe das palavras a estrutura base para o que guiará o quinteto no restante do projeto. Falta novidade ou distinção – o que constrange em alguns instantes -, mas nada que não possa ser aproveitado, principalmente quando temos em nossos ouvidos a reverberação suavizada não apenas da faixa de abertura, mas de todo o bem planejado álbum.

 

Seguindo o gancho da canção inicial, a ensolarada Paz flutua constantemente entre os momentos menos obscuros de Camelo e as guitarras radiantes de Rodrigo Amarante – até as pequenas doses de distorção espalhadas ao fundo da música funcionam como continuidade do que fora testado em músicas como O Vento. Ao aterrissar em Mais cedo, a banda pela primeira vez alcança um resultado de delineamentos próprios. Ainda atenta ao toque ameno da obra, a música se desmancha na lírica leve de Marcus Neri e Emygdio, encontrando uma proposta radiante em relação ao que o conterrâneo Cícero firma em Canções de Apartamento (2011).

Depois de passear pelo romantismo delicado e envolvente de Ela (Meu cantar, meu olhar, meu ser/ Moram nela), a banda volta a percorrer os mesmos erros de outrora, dessa vez acertando no instrumental e pecando amargamente nos versos. Redundante até o último momento, a faixa se vale pretensiosa da velha dualidade entre dois personagens básicos da história de um casal em fim de namoro – um masculino e outro feminino -, que entre rimas gastas percorrem as metáforas e desajustes do carnaval, resultando em uma versão recente de tudo aquilo que já fora aproveitado por Chico Buarque nos primeiros anos de sua carreira.

Do meio para o fim do disco tudo volta a se repetir, tanto na musicalidade confusa – resultando em composições que soam demasiado similares -, como nos versos requentados. Talvez o maior destaque essa segunda metade fique por conta de Melhor Que Eu, música que mesmo íntima dos anseios existenciais de Amarante percorre um instrumental diferenciado, quase próximo do rock nacional dos anos 80 e um refresco para os ouvidos do espectador. A canção flui como um sopro, rompendo com a morosidade final de um disco que até agrada, mas parece velho ou atrasado em relação ao que ecoa novo por aí, principalmente dentro do cenário carioca.

Fábrica (2012, Independente)

Nota: 6.0
Para quem gosta de: Los Hermanos, Cícero e Dabliu Júnior
Ouça: Melhor que Eu e Mais Cedo

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