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Disco: “Fading Frontier”, Deerhunter

Deerhunter
Dream Pop/Experimental/Psychedelic
http://deerhuntermusic.com/

 

Gritos, ruídos e distorções. A julgar pelo som incorporado pelo Deerhunter em Monomania, de 2013, a busca por um som cada vez mais agressivo, visceral, parecia orientar o trabalho da banda original de Atlanta, Georgia. Surpresa encontrar em Fading Frontier (2015, 4AD), sétimo registro de inéditas do coletivo comandado por Bradford Cox e Lockett Pundt, uma proposta completamente distinta em relação ao último projeto de estúdio. Em uma espécie de regresso ao ambiente montado para Halcyon Digest (2010), vozes e arranjos se articulam de forma letárgica, encaixando instantes de maior euforia sem necessariamente romper com o som cósmico assumido pela banda em grande parte das faixas.

Com produção assumida por Ben H. Allen (Animal Collective, Washed Out) – também responsável por Halcyon Digest -, Fading Frontier é o trabalho em que a busca de grupo por novas possibilidades abraça com delicadeza a essência ruidosa projetada desde a estreia com Turn It Up Faggot (2005). Não se trata de uma curva brusca como o álbum lançado há dois anos, mas um resgate atento (e remodelado) de boa parte do acervo projetado pelos integrantes dentro e fora da banda – vide a explícita relação com os paralelos Atlas Sound e Lotus Plaza.

Diferente dos outros trabalhos, Fading Frontier é o álbum em que as influências de cada integrante se manifestam com maior naturalidade. Não por acaso Bradford Cox desenvolveu um mapa de referências no site da banda, indicando grandes parte dos elementos que serviram de inspiração para o presente trabalho. De artistas como Caetano Veloso, Al Green, R.E.M. e Tom Petty, passando pelo cinema de Pedro Almodóvar e Robert Bresson, até alcançar os poemas de Pablo Neruda e telas de Henri Matisse, uma imensa colcha de retalhos culturais se estende da abertura ao fechamento do disco.

Interessante notar como todos esses elementos lentamente florescem no interior da obra. Do fascínio pelo R.E.M. nascem as vozes e melodias de Breaker, Living My Life e Carrion. Em Take Care e Ad Astra, o expressivo uso de sintetizadores, referencia direta ao trabalho de veteranos como Tears For Fears – banda também citada no mapa de Cox com o clássico dos anos 1980 Everybody wants to rule the world. Ao final de Ad Astra, a rápida inserção de I Wish I Was A Mole In The Ground, canção gravada em 1928 pelo músico Bascom Lamar Lunsford. 

Mais do que um conjunto de temas e conceitos reciclados, durante toda a construção da obra, nítido é o esforço da banda em presentear o público com um catálogo de novidades. Faixa mais distinta do álbum, Snakeskin talvez seja o melhor exemplo desse esforço. Em pouco mais de quatro minutos, guitarras e batidas dançantes arremessam o ouvinte para dentro de um terreno parcialmente inédito dentro da discografia do grupo, expandindo a relação com a década de 1970 inicialmente testada em Coronado – espécie de diálogo com o clássico da banda britânica The Rollings Stones Exile On Main Street. (1972). Mesmo os versos “reflexivos” de Living My Life e o toque romântico de Take Care detalham uma proposta sutil, doce, dentro de álbum, nitidamente influenciado pelo acidente de Bradford Cox no último ano.

Livre da explícita separação que divide o antecessor Monomania entre canções de Bradford Cox e Lockett Pundt, Fading Frontier traz de volta o mesmo som homogêneo incorporado pela banda desde a maturidade alcançada em Microcastle (2008). Síntese de todo o trabalho, o dueto sustentado em Breaker reforça não apenas o diálogo estreito entre os dois principais componentes da banda, como ainda abre passagem para o labirinto de sensações que o grupo amplia delicadamente até a última nota do trabalho.

 

Fading Frontier (2015, 4AD)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Beach House, Real Estate e Animal Collective
Ouça: Breaker, Living My Life e Take Care