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Disco: “Galactic Melt”, Com Truise

Com Truise
Electronic/Lo-Fi/Synthpop
http://www.myspace.com/iamcomtruise

 

Se os anos 80 ainda não chegaram ao fim, do que depender do produtor Seth Haley, vulgo Com Truise, tal década será eterna. Depois de uma infinidade de singles e EPs cultivados ao longo de quase dois anos, o músico de Princeton, New Jersey finalmente entrega seu primeiro Long Play, o climático Galactic Melt (2011), álbum que concentra toda a funcionalidade do norte-americano em produzir composições ambientais e que exalam certa nostalgia oitentista. Diferente dos representantes da famigerada Chillwave, Haley se desliga das frequências viajadas e do espirito praieiro, montando um álbum repleto de tendências futurísticas.

O álbum funciona como uma espécie de trilha sonora para um futuro próximo – talvez para Tron (de 1982) – rodeado de formas opacas, carros que voam e neon, muito neon. Diferente do caminho pavimentado por outros artistas do gênero como Washed Out e principalmente Neon Indian, a temática levantada por Haley ao longo do álbum soa deveras inovadora, não se prende à construção de faixas esvoaçadas, repletas de delays e sintetizadores chapados, mas dá vida a algo mais sólido, denso e temático.

Seria, entretanto, um erro classificar a estreia de Com Truise como algo genuíno, afinal, as bases que dão sustentação ao disco agregam elementos oriundos dos mais variados gêneros e artistas que criaram todo o saudosismo envolvendo a década de 1980. Mesmo que o princípio para o disco seja o explorar do synthpop, o produtor vai de encontro aos sons dos videogames da época, fitas VHS, comerciais de TV, filmes de ficção científica, além de certo interesse pela astronomia (como se percebe no próprio titulo da obra). Este conjunto de elementos acaba por transformar o álbum em algo quase dotado de certo hermetismo, como se nenhuma das faixas pudessem sobreviver fora dos limites dessa galáxia derretida.

O ouvinte carente por novidades pode se sentir frustrado ao experimentar o álbum, em vista da sequência de sons referenciais e carregados de uma poeira nostálgica. Entretanto, a beleza de  Galactic Melt está em se entregar aos sons espaciais do trabalho, seus sintetizadores analógicos e o ritmo “futurístico” que ele propõem. Diferente de álbuns como Psychic Chasms (2009) ou outros lançamentos do mesmo estilo, a estreia do Com Truise não parece feita para dançar, mas sim para ser apreciado, deixar que as sofisticadas tramas de teclados se apoderem dos ouvidos.

Embora se concentre em sua quase totalidade como um disco conciso, somente quando o álbum abandona sua “viagem espacial” em prol de uma viagem lisérgica, que ele alcança seus melhores resultados. A partir da sexta faixa, Hyperlips, o disco suspende seu caráter ambiental e ruma para algo muito mais etéreo, concentrando longas doses de teclados viajados, algumas quebras de ritmos, além de certa predisposição à psicodelia. Em Ether Drift (o nome já diz tudo) somos apresentados ao ápice dessa viagem, embarcando em uma série de solos sintetizados, ruídos instáveis e bips ocasionais. É quase semelhante ao momento em que Dr. David Bowman (personagem vivido por Keir Dullea no filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, 1968) cai em uma espécie de vórtice até que possa se encontrar consigo mesmo, rompendo a “linearidade” da película.

Além da visível predisposição aos sons caricatos da década de 1980, muito do que compõem a musicalidade construída por Truise vem das experimentações do Kraftwerk, em que álbuns como Radio-Activity (1975) e Computer World (1981) se revelam como boas bases à obra do produtor (VHS Sex e Cathode Girls exemplificam isso). É dentro desse jogo de elementos que dão substância ao som elaborado por Seth Haley, que sua estreia se sobrepõem aos demais discos que envergam por essa mesma eletrônica lo-fi, fazendo de Galatic Melt um dos grandes trabalhos de 2011 e um registro distante das mesmas redundâncias que tem se abatido sobre esse tipo de som.

Galactic Melt (2011)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Groundislava, Neon Indian e Gold Panda
Ouça: VHS Sex

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