"Ghettoville "

Ano: 2014
Selo: Werk / Ninja Tune
Gênero: Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: Andy Stott, Zomby
Ouça: Corner, Time e Grey Over Blue
Nota: 7.5

Disco: “Ghettoville”, Actress

Actress

Darren J. Cunningham sempre conseguiu lidar com a Ambient Music e suas estranhas variações de forma particular. Desde a estreia com Hazyville, em 2008, cada composição assinada pelo produtor britânico parece extrapolar os limites tradicionais do gênero, alicerçando na reverberação suja das bases um ponto de equilíbrio entre a calmaria e a agitação. Em um curioso estágio de regresso ao primeiro disco, o artista faz do novo trabalho de estúdio, Ghettoville (2014, Werk/Ninja Tune), uma obra que passeia por diferentes camadas da própria obra, utilizando da solução obscura das próprias referências um mecanismo de direção para o álbum.

Completamente separado da estrutura imposta em Splazsh (2010) e R.I.P. (2012), Cunningham usa do álbum como um trabalho que se afasta das pistas de forma a lidar com um bloco de sons climáticos e essencialmente introspectivos. Quase um esboço – como a própria capa do álbum logo entrega -, Ghettoville é um disco que brinca com aspectos específicos da obra do artista, sem necessariamente interferir nesse resultado. São loops básicos, soluções pacatas e uma estranha sensação de experimento controlado que direciona toda a construção da obra.

Anunciado como um registro triplo – são quase 70 minutos de duração espalhados ao longo de 17 músicas -, o álbum assume em cada faixa um objeto específico dentro da arquitetura final do trabalho. Sem uma ordem específica e longe da comunicação temática expressa em R.I.P. – com todas suas referências mitológicas e tramas específicas -, o disco se arrasta em um condensado de experiências que buscam revisitar o universo autoral de Cunningham. Transições eletrônicas rápidas, caso de Don’t, ou mesmo criações extensas, aos moldes de Grey Over Blue, faixas que se espalham em verdadeiros labirintos de texturas dentro de um curto ou longo espaço de tempo.

Atravessar Ghettoville é ser constantemente bombardeado pela sensação de “já ter ouvido isso antes”. Como uma imensa colcha de retalhos e canções abandonadas durante a construção dos anteriores projetos do produtor inglês, o álbum sobrevive das cinzas de ideias e temas tradicionais. Um exercício evidente na atmosfera de Rims e Birdcage, que mais parecem sobras do trabalho passado, de 2012, ou mesmo Skyline, que revive a mesma agitação expressa nos primeiros singles de Cunningham. Um conjunto de referências que beiram o Lo-Fi (Rap) e a repetição de ideias (Time) sem necessariamente derrubar a imposição hipnótica de seu criador.

Mesmo que Cunningham assuma de forma criativa o autoplágio, não são poucos os momentos dentro da obra que reforçam a capacidade do produtor em lidar com o ineditismo. Enquanto faixas aos moldes de Corner e Our revelam o lado mais “descompromissado” do artista, Forgiven, na abertura do álbum e Grey Over Blue, no fechamento, reforçam os atos imensos e experimentais proclamados pelo britânico. São colagens densas de ruídos que encontram o Drone, atravessam a IDM e respiram ao final como um invento próprio do produtor. Tapeçarias detalhistas que se desenrolam dentro dos planos e da sutileza habitual do produtor.

Distante do conjunto tradicional de essências e efeitos detalhistas que ocupam cada faixa, Ghettoville precisa de tempo até ser absorvido em totalidade. Ainda que o isolamento de cada música reforce o sentimento de inexatidão do álbum, a densidade das faixas reforçam a complexidade do disco, que mesmo vasto se comporta como um ato único. Dessa forma, como nos registros que antecedem a presente obra, Cunningham faz do álbum um trabalho tão desafiador quanto curioso, brincando com a mente do ouvinte sem possíveis pausas.

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