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Disco: “Ghost on Ghost”, Iron & Wine

Iron & Wine
Indie/Folk/Singer-Songwriter
http://www.ironandwine.com/

 

Por: Cleber Facchi

Sam Beam

Samuel Beam teve um papel importante na produção musical da última década. Nos comandos do Iron & Wine, o cantor e compositor vindo da Carolina do Sul soube como poucos a forma de administrar os sons confortáveis da música folk. Tudo isso em um tempo em que as guitarras e a eletrônica pareciam ditar os rumos de toda a produção musical da época. Uma medida tecnicamente simples de violões e vozes tratados dentro de uma atmosfera bucólica, algo que o músico buscou aprimorar com a chegada do disco The Shepherd’s Dog (2007), ápice de uma série de três registros bem solucionados e de tratamento confessional. Entretanto, uma vez ciente das próprias limitações Beam foi de encontro ao reinvento.

Com o lançamento do quarto registro em estúdio há dois anos, Kiss Each Other Clean (2011), o compositor trouxe na inexata apropriação de ritmos as bases para uma modificação essencial na estrutura que o acompanha desde o começo de carreira. Menos tímido e cada vez mais ambientado com a proposta de lidar com uma banda, em cada faixa do álbum o músico deixa fluir um extrato sonoro que rompe intencionalmente com as limitações agradáveis dos primeiros discos. Seja pelo uso controlado de guitarras, acréscimo de metais e vozes em coro, tudo se manifesta como um afastamento assertivo, efeito que o músico também usa para sustentar o recém-lançado Ghost on Ghost (2013, 4AD).

Espécie de continuação sublime daquilo que o cantor vinha desenvolvendo, o quinto disco do Iron & Wine é ao mesmo tempo um tratado de aproximação e afastamento com as marcas iniciais do projeto. De forma clara, a ambientação climática está presente em todo o álbum, ao mesmo tempo em que vocais nada tímidos e uma instrumentação ampla tratam de afastar Beam de qualquer redundância possível. Um exercício constante de evolução, ao mesmo tempo que características essenciais não são apenas mantidas, como aprimoradas no decorrer da obra. Ao lado do velho parceiro, o produtor Brian Deck, Sam firma um exercício completo que lentamente o distancia da zona de conforto de outrora em busca de uma fórmula criativa que deve alimentar os próximos discos do Iron & Wine.

 

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Conceitualmente, a proposta de Beam permanece a mesma. Enquanto o clima intimista se relaciona de forma aberta com tudo aquilo que Elliott Smith alcançou até o lançamento de XO (1998), os vocais resgatam a mesma essência de Simon & Garefunkel dentro do minimalista Sounds of Silence (1966). A diferença está no completo rompimento com o toque bucólico que antes o aproximava de Nick Drake e principalmente Neil Young. Assim como no trabalho passado, o novo disco afasta o músico do contexto rural dos primeiros lançamentos, centralizando a obra em um ambiente urbano e levemente acinzentado.

Mesmo que faixas a exemplo de Sundown (Back in the Briars) e The Desert Babbler até sejam capazes de reviver a proposta dos primeiros álbuns, quanto mais Ghost on Ghost se desenvolve, mais a relação de Beam com o toque urbano se intensifica. O melhor exemplo disso está no reaproveitamento do clima jazzistico testado no álbum passado, efeito que o músico trata de aprimorar com uma maior valorização das guitarras e até de elementos do Blues em todo o novo disco. Surgem músicas aos moldes de Low Light Buddy of Mine, Singers and the Endless Song e a ótima Lovers’ Revolution, inventos capazes de transportar a proposta pacata do artista para um jogo mais acelerado, quase íntimo do folk rock testado no começo da década de 1970, mas sem se desligar dos clubes de jazz dos anos 1950.

Da mesma forma que o trabalho que o antecede, Ghost on Ghost surge como um exercício constante de experimentação – para o músico e principalmente para o ouvinte. Enquanto busca reafirmar o próprio território, Beam não exita em presentear o público com uma sequência de composições imprevisíveis quando voltamos os ouvidos para mergulhar na calmaria dolorosa de The Creek Drank the Cradle (2002). Independente do percurso que venha a seguir, Samuel prova mais uma vez ser capaz de comover, tratando de cada verso pessoal como um exercício de intensa relação com o próprio ouvinte.

Iron & Wine

Ghost on Ghost (2013, 4AD)


Nota: 7.9
Para quem gosta de: Fleet Foxes, Bon Iver e Andrew Bird
Ouça: The Desert Babbler, Baby Center Stage e Joy

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