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Disco: “Glow & Behold”, Yuck

Yuck
Alternative Rock/Indie/Shoegaze
http://yuckband.com/

Por: Cleber Facchi

Yuck

Imagine vasculhar caixas antigas na casa dos seus pais e em uma delas você encontra uma pequena coleção de fitas cassete. Dentro do amontoado de poeira que concentra alguns clássicos dos anos 1980/1990, uma pequena Mixtape, esquecida, com encarte escrito à mão e um cardápio considerável de músicas fundamentais para o período. Abastecida por gravações sujas, recheadas de falhas, você se depara com um arsenal de boas melodias, barulhentas, mas capazes de representar com acerto tudo o que alimentou o princípio do rock alternativo. Talvez contraditória para alguns, mas essa parecia ser a exata proposta do coletivo britânico Yuck com o lançamento do bem recebido debut, em 2011.

Intencionalmente nostálgico, sujo e barulhento, o trabalho parece mergulhar no fim da década de 1980 em um sentido claro de resgate. Estão lá melodias que cheiram a Teenage Fanclub (Shook Down), guitarras que brincam de Dinosaur Jr. (Get Away), Pixies (The Wall) e Pavement (Sunday), sons que mais parecem fluir como uma coletânea de clássicos, ou talvez, uma mixtape caseira e esquecida. Livre de quaisquer compromissos e curiosamente incapaz de soar como um plágio, o álbum entregou ao ouvinte exatamente aquilo que eles gostariam de ouvir: faixas caseiras, perfumadas pelo passado e consumidas abertamente pelo ruído.

E agora, para onde seguir? Estacionados no mesmo período, ou quem sabe, um pouco além, o grupo regressa ao passado para mais uma overdose de nostalgia e melodias que, na contramão do que parecia previsto, evoluíram. Mesmo desfalcado do vocalista, Daniel Blumberg, o quarteto remanescente – formado por Max Bloom, Mariko Doi, Jonny Rogoff e Ed Hayes – prova que a saída do velho “líder” foi insuficiente para balançar os alicerces do grupo, pelo contrário, parece ter favorecido a essência da banda. Os ruídos, amenizaram, as guitarras parecem brincar com um meio termo entre o Shoegaze e o Power Pop, mas os hits, continuam preciosamente em alta.

Continuação (quase) imediata ao que o grupo finalizou nos ruídos da extensa Rubber, canção de encerramento do debut, Glow & Behold (2013, Fat Possum/Pharmacy) mantém nas guitarras um princípio para todo o “novo” universo do quarteto. Tecnicamente ameno e límpido, o disco encontra na essência ainda mais presente do Teenage Fanclub e My Bloody Valentine a base para a construção da obra. São texturas mais extensas, melodias de vozes que se misturam aos arranjos e letras que combatem a crueza de outrora com versos pontilhados pela maturidade. Dor, saudade e problemas típicos de jovens adultos borbulham pela obra, efeito que distancia com beleza o teor quase adolescente de faixas como Get Away e Suck do álbum passado.

Mesmo quando as coisas parecem imutáveis, há sempre uma carga de novidade que distancia o álbum do óbvio. Exemplo mais evidente disso talvez esteja na formatação de Middle Sea. Primeiro grande single da obra, a canção parece surgir como um exemplar quase caricato do disco passado, um reaproveitamento da essência de J Mascis, mas que encontra no versos pop e até no uso de metais um sentido de mudança. Com Rebirth temos o mesmo resultado. Brincando de Loveless (1991), a canção flerta abertamente com a obra de Kevin Shields, encarnando até os mesmos efeitos assinados pelo músico inglês. Entretanto, uma vez que os vocais sobrepõem as distorções, a banda, mais uma vez, foge da cópia, encontrando um refúgio efêmero, mas de “novidade”.

Como se o grupo se prontificasse a atender tudo o que foi conquistado há dois anos, Glow & Behold é um trabalho que não apenas ultrapassa qualquer chance de desagrado, como ainda surpreende. Por mais nostálgico estranhamente similar que seja o efeito instalado em músicas como Nothing New e Out of Time, denunciar a incapacidade da banda em brindar o ouvinte com faixas ausentes de identidade seria um erro. Não se trata de repetição, cópia ou plágio, você apenas resolveu olhar no fundo da velha caixa empoeirada e descobriu que existe ali mais uma mixtape perdida para sua coleção.

Yuck

Glow & Behold (2013, Fat Possum/Pharmacy)

Nota: 7.6
Para quem gosta de: The Pains Of Being Pure At Heart e Smith Westerns
Ouça: Middle Sea, Nothing New e Glow & Behold

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One thought on “Disco: “Glow & Behold”, Yuck

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