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Disco: “Goblin”, Tyler, The Crator

Tyler, The Creator
Hip-Hop/Alternative/Rap
http://www.myspace.com/imaginace
http://oddfuture.com/

Por: Fernanda Blammer

Qualquer um que tenha assistido ao polêmico clipe de Yonkers lançado no começo de fevereiro pôde ter uma boa ideia do que se trata a sonoridade e os temas abordados pelo jovem Tyler Okonma, de 20 anos, que anda por aí distribuindo versos sob a forma de um tal Tyler, The Creator. Coqueluche do cenário hip-hop de Los Angeles e pouco, a pouco conquistando novos territórios pelo resto dos Estados Unidos (e do restante do mundo), o rapper transforma suas batidas sincopadas em um prelúdio para que versos agressivos, sujos e deveras constrangedores possam se evidenciar.

Certo sentimento de efemeridade, urgência e caos perpassam os trabalhos de Tyler – que também é integrante do coletivo OFWGKTA (Odd Future Wolf Gang Kill Them All), onde todos os membros contam com idades similares à de Okonma. Bastard, o disco de estreia do californiano foi lançado no final de 2009 e pouco a pouco descoberto pela mídia e pelo público, que encontraram nos versos do rapaz um refúgio. A agressividade com que o rapper destila seus versos em meio a uma instrumentação tomada por looping de piano e batidas soltas foi o grande centro atrativo para que o álbum obtivesse destaque, através de quase-hinos como a faixa-título,  Seven ou Blow.

A obscuridade violenta e o clima quase hermético do álbum – produzido e lançado pelo próprio rapper – embora superassem expectativas acabam hoje por se revelar um verdadeiro aperitivo, perto do que estava por vir. Goblin (2011), segundo disco de Tyler em carreira solo é um mergulho ainda mais profundo dentro da instável mente do rapper, que faz do trabalho uma espécie de sessão de análise não confidencial, expondo suas mais diversificadas facetas, delírios, raivas e até amores através de versos nada polidos.

Assim como em Bastard, Tyler traz para dentro do disco a voz de seu psicólogo imaginário – o próprio rapper sob efeito do auto-tune – questionando-o a todo momento sobre seu passado, presente e futuro, criando um auto-confronto onde o rapper tenta (porém não consegue) sair ileso em temas relacionados à sua família, a crescente aproximação com a mídia e os mais diversos existencialismos típicos de alguém de sua idade. A todo momento o californiano arrasta o ouvinte para dentro de sua insanidade e de seus questionamentos, tornando o próprio espectador uma espécie de personagem em meio a tudo isso.

Os excelentes versos, porém, não teriam o mesmo impacto se não fossem pelas batidas e a instrumentação obtusa com que o rapper constrói o disco. O grande poderio de Yonkers, por exemplo, está no instrumental ruidoso que solidifica espaços para que Okonma esparrame seus versos. O mesmo vale para a quase-soul Nightmare ou a desorientada Sandwitches, que assim como um buraco negro traga os vocais do próprio criador para dentro de seu conflito musical e poético. Os minimalismos à base de piano de outrora são sumariamente esquecidos em prol de um som áspero e que caracteriza com propriedade a tensão e o desequilíbrio de Goblin.

Por mais que o álbum seja apreciado pelo ouvinte em um contexto externo às reais situações que perpassam a vida de Tyler, a crueza das letras e a climatização doentia transportam qualquer um, sem escapatórias para dentro do universo próprio do trabalho. Goblin deve levar o rapper a conhecer o mainstream, os lucros e as glórias que tanto movimentam o hip-hop norte-americano. Se o jovem rapper sobreviver em meio a tudo isso, sem se desligar do OFWGKTA, ou manter seu ego em um nível estável, não há duvida que em breve teremos novas sessões públicas de análise, talvez ainda mais sombrias do que as exploradas atualmente.

Goblin (2011)

Nota: 8.5
Para quem gosta de:  OFWGKTA, Earl Sweatshirt e MellowHype
Ouça: Yonkers

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