"Good Kid, M.A.A.d City"

Ano: 2012
Selo: Interscope / Aftermath / Top Dawg
Gênero: Hip-Hop, Rap
Para quem gosta de: SchoolBoy Q, Big K.R.I.T.
Ouça: Poetic Justice, Bitch Don't Kill My Vibe
Nota: 9.1

Resenha: “Good Kid, M.A.A.d City”, Kendrick Lamar

Há um ano prever o que seria definido dentro do Hip-Hop parecia ser uma tarefa fácil para quem acompanhava a cena estadunidense. Tendo como base os samples obscuros que serviam de sustentação aos trabalhos de Tyler, The Creator, A$ap Rocky e Death Grips, tudo indicava que o rap mergulharia de vez no experimento. Parecia que todos seriam Shabbaz Palaces e rimar seria apenas um fator aleatório, visto que a sonoridade parecia ser maior dos que os versos. Quem apostou nessa proposta irregular e no encaminhamento até então “previsível” ao estilo não apenas se enganou, como deixou passar o pequeno cenário que começava a ser planejado. Um imenso retrocesso conceitual incorporado até por quem insistia no experimento e que traria de volta toda a variedade de referências pop/comerciais que definiram o hip-hop no começo dos anos 2000 ou até mesmo antes disso.

Espécie de aviso do que seria firmado dali alguns meses, quando Habits & Contradictions foi lançado em janeiro deste ano Schoolboy Q não apenas trouxe de volta todas as melodias tradicionais do hip-hop entalhado por Jay-Z, OutKast e Snoop Dogg, como parecia apresentar o elenco que reformularia todos os acontecimentos que viriam pela frente. Lançado pelo selo independente Top Dawg Entertainment (TDE), o disco estabelecia as bases para o que Jay Rock, Ab-Soul, além do próprio Q pareciam inclinados a promover: um som descompromissado, recheado por samples de músicas parcialmente conhecidas e versos prontos para grudar nos ouvidos do espectador. Nada das experimentações trabalhadas no último ano. Apenas a fumaça do baseado subindo pelo quarto, rimas sobre garotas de biquíni, álcool e o cotidiano sombrio que acompanha cada rapper.

Também membro do mesmo coletivo e presente em cada um dos trabalhos lançados pelos parceiros de selo, Kendrick Lamar sempre pareceu o representante mais consciente do pequeno grupo. Profundo interessado em expandir o mesmo encaminhamento melódico que circulava pelos trabalhos dos conterrâneos – sem jamais abandonar os versos temperados pela origem humilde que o acompanha -, o rapper transformou o debut Section.80 em um aperitivo – ainda que inconsciente – para o que é entregue agora com a chegada do possivelmente histórico Good Kid, M.A.A.D City (2012, Interscope/Aftermath/Top Dawg). Retorno não apenas ao que fora consolidado há uma década, o álbum traz de volta toda a verve de experiências que tingiram a década de 1990, transitando em uma medida particular pelos versos do clássico Illmatic (1994) de Nas ao mesmo tempo em que encontra sustento nas batidas de The Chronic (1992), do parceiro de produção Dr. Dre.

Com o subtítulo de A Short Film by Kendrick Lamar, o álbum torna claro logo na capa que temos em mãos um registro de encaminhamentos e definições totalmente bibliográficas. Concentrado de forma integral na vida do rapper – iniciando aos 17 anos até alcançar o presente instante -, o disco mantém na utilização constante de diálogos e versos quase narrados (bem representados em Sing About Me, I’m Dying Of Thirst) uma definição clara do que passeia por todo o trabalho. Além do universo particular do rapper, que em diversos momentos se perde entre montes de cocaína e tiros, outro elemento surge como um ingrediente necessário ao disco: a família. Da capa – com Kendrick ainda bebê nos braços dos tios – aos diálogos espalhados de maneira quase cinematográfica por todo álbum, a herança (cultural e religiosa) dos familiares é uma ferramenta necessária ao desempenho do disco, como se o rapper lembrasse cada membro da família em todo verso que surge de maneira firme pelo registro.

Por mais que Good Kid, M.A.A.d City seja vendido como um registro em estúdio, o que garante destaque ao projeto vem do despojo caseiro das canções, além do clima não linear que acompanha a execução de todo o disco – resultado típico do que define uma mixtape. Bastam apenas os minutos finais da inaugural Sherane a.k.a Master Splinter’s Daughter e todos os pequenos diálogos que se espalham pelo registro para entender isso. A temática mezzo artesanal, mezzo profissional contribui para um resgate inevitável do que o rapper havia explorado no decorrer do registro anterior, Section.80, indo muito além do que havia projetado inicialmente. Com a estratégia, Lamar ainda vai de encontro aos mesmos percursos assumidos por Frank Ocean no álbum Nostalgia, Ultra, firmando um disco que se distancia dos acertos volumosos de um tradicional registro em estúdio, para crescer de forma natural. O exercício torna as histórias versadas pelo rapper muito mais íntimas do espectador, rompendo com um possível limite que poderia prejudicar um trabalho do gênero.

Embora pensado como uma obra fechada – cada rima parece construir um pedaço do imenso roteiro que define o álbum – há em toda canção do disco um reforço individual. A proposta garante tanto a formação de um trabalho linear (com abertura, meio e fecho) da mesma forma que cada composição funciona como um registro raro, um composto volumoso que se preenche de versos, sons e particularidades grandiosas tão significativas quanto qualquer imenso álbum completo. Provavelmente um dos discos mais importantes da presente década, Good Kid, M.A.A.d City é fruto direto da atuação, direção e principalmente roteiro de Lamar, que converte o que poderia ser um retrato banal do cotidiano em uma história de significado amplo e compartilhado. O Hip-Hop não regressou uma ou duas décadas como o disco por vezes aponta, ele acaba de recomeçar.

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