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Disco: “Gratitude”, Phillip Long

Phillip Long
Brazilian/Indie/Singer-Songwriter
https://www.facebook.com/philliplongfolk

 

Por: Cleber Facchi

Phillip Long

Há um esforço considerável no que orienta com detalhe a obra de Phillip Long. Somente no último ano, foram quatro registros em estúdio lançados pelo compositor paulistano – Atlas, Sobre Estar Vivo, Dancing With Fire (A Folk Opera) e Caiçara -, todos trabalhos orquestrados com plena atenção em um reflexo inevitável sobre a alma de seu criador. Não diferente é o delineamento encontrado para esculpir Gratitude (2013, Independente). Mais novo trabalho assinado pelo músico de Araras, São Paulo, o disco surge como um espaço de transformação no que decide a obra de Long, bem como um ponto de consolidação de um império particular dentro do folk nacional.

Tratado em um espaço de atenta simplicidade e confissão, o registro cresce como ponte para o que alimenta décadas de referências ao gênero – aqui, ou em solo estrangeiro. Um ponto de comunhão branda entre as invenções proclamas por gigantes, como Neil Young, e novatos, à exemplo de Justin Vernon (Bon Iver). Entretanto, na contramão do que embebeda com nostalgia e um perfume claro de pastiche a obra de tantos compositores nacionais, Long entende o dedilhado simples dos violões não como um ponto de resgate da obra de veteranos, mas como um palco para as próprias confissões e desilusões autorais.

Ainda que os versos em inglês construam uma barreira leve em torno da obra do artista, a sensibilidade exposta converte a poesia derramada pelo disco em matéria de intendimento universal. São composições costuradas por uma saudade inesgotável, melancolias de alcance sublime e confissões que mesmo alheias, se convertem em um material próximo do ouvinte. Versos fáceis, como os de Grace e Once (In The Name Of Love), que não precisam de complementos grandiosos para traduzir o que por vezes se revela complexo em essência.

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Assim como o ambiente tímido exposto na capa do registro, Gratitude é um trabalho de limites intencionalmente desejados. Cada acorde exposto na composição final da obra não parece fugir do espaço previamente exposto por Long, o que reforça a estrutura já identificada em Atlas. Todavia, em um sentimento de novidade, o presente álbum rompe com os possíveis complementos de outrora, ambientando a obra do paulistano em um cenário cada vez hermético, leve e silencioso. Por vezes é como se a música de Long se sustentasse em suspiros, memórias curtas de um passado-presente que se esparrama com leveza pelo disco.

Todavia, por mais que a composição exposta em Gratitude se adorne de elementos simplistas, fruto do convencimento natural pelas palavras, não há como observar o disco sem excluir os detalhes que naturalmente o definem. Em Woke Up This Morning, por exemplo, o que tinha tudo para se manifestar como um ensaio bucólico-romântico ao estilo de Nick Drake, cresce no manuseio criativo dos vocais. Sobreposições climáticas que parecem se movimentar de acordo com a acústica simples do violão. O mesmo exercício volta a se repetir em Far On A Distant Field e Trapezist, esta última envolvida pela voz quase oculta de Laura Wrona, tempero natural para o registro.

Resolvido musicalmente em um sentido pleno de confissão, Gratitude foge à lógica no regime quase fordista que impulsionava os registros anteriores do músico. Trata-se de uma obra de beleza honesta, em que os versos, mesmo distantes do ouvinte em alguns pontos – fruto do compositor convertido em matéria-prima – não excluem em momento algum a presença crescente do sentimento. Por mais exagerado e piegas que possa parecer, Phillip Long fala ao coração, e fala como poucos.

 

Gratitude

Gratitude (2013, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Nick Drake, Phil Veras e Bon Iver
Ouça: Grace, Woke Up This Morning e Trapezist