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Disco: “Half Of Where You Live”, Gold Panda

Gold Panda
Electronic/IDM/Glo-Fi
http://www.iamgoldpanda.com/

Por: Cleber Facchi

Gold Panda

A relação com o oriente sempre foi parte fundamental no trabalho de Gold Panda. De origem inglesa, o produtor passou boa parte da vida se relacionando com a cultura e os costumes orientais, aproximação que se ampliou de forma significativa depois de uma temporada de vivência no Japão. É justamente dentro desse cenário moldado em cima de referências, tradições e sons tão característicos que o artista trouxe em 2010 o experimental e naturalmente climático Lucky Shiner, primeiro grande trabalho da carreira e um resgate voluntário de todos os elementos que marcam os sons orientais. Pequenos diálogos em japonês, orquestrações chinesas e resgates sonoros de fitas VHS que se ampliam com detalhe em Half Of Where You Live (2013, Notown), segundo álbum do britânico e um novo percurso para as bases firmadas no disco passado.

Espécie de estrangeiro dentro do próprio país, Panda lentamente se reaproxima dos sons e preferências instrumentais firmadas na eletrônica inglesa recente. Menos artesanal que o registro de estreia, o presente disco se revela como uma extensão natural daquilo que o artista testou há alguns meses dentro do cuidadoso Trust EP (2013). Antecipando o que alimenta as composições do novo disco, o tratado de quatro faixas encontra no manuseio preciso do produtor uma continuação madura, fazendo da obra um lançamento que passeia pelas ruas de Tókio ao mesmo tempo em que trilha timidamente a metrópole londrina.

Trabalhado dentro de um enquadramento essencialmente ambiental, com o presente disco Panda incorpora uma curva delicada em relação aos sons pavimentados com  Lucky Shiner. São composições capazes de resgatar a mesma serenidade dançante aprimorada por Four Tet em There Is Love In You (2010), ao mesmo tempo em que músicas como Marriage e India Lately, do trabalho passado, se desdobram em ineditismos, assumindo nova proposta. Um descompasso estranho e ainda assim encantador entre as manifestações sintéticas dos sons em meio ao jogo funcional de acertos bucólicos, quase primaveris em diversos momentos. Panda parece interessado em descobrir a própria obra, e é isso que ele assume durante toda a extensão do registro.

Ainda que plástico em relação ao disco que o antecede, Half Of Where You Live cresce como um trabalho em que os detalhes fazem toda a diferença. Desenvolvido em cima de pequenos mosaicos sonoros que se sobrepõe, o disco dança pela IDM em forte comunhão ao que a dupla Boards Of Canada alcançou em Geogaddi (2002), revelando ao mesmo tempo toques precisos de Aphex Twin e Autechre, manifestações que surgem durante todo o tempo do registro. Os sons orientais por sua vez se posicionam em um segundo plano, fazendo com que Panda se concentre muito mais na composição das métricas eletrônicas que traduzem as batidas, do que nas bases em si. Trata-se de uma obra frágil, porém, nem por isso imprecisa.

Do que abastecia Lucky Shiner pouco parece ter sobrevivido. Enquanto My Father In Hong Kong 1961 se manifesta como uma exata continuação do que foi deixado em Same Dream China, faixas bucólicas como The Most Liveable City exploram uma espécie de retrospecto caseiro do disco passado. Samples de animais, sons da natureza e uma camada leve de poeria que se acumula entre as canções fazem com que o disco dance em uma medida atemporal e ainda assim nostálgica. Como se estivesse colecionando memórias, o produtor transforma mesmo canções simples aos moldes de S950 e Enoshima em achados climáticos, reservando para músicas como Brazil e Junk City II uma relação inevitável com as pistas, mas que nunca rompe com o mesmo propósito atmosférico do restante do álbum.

Todo construído em cima de detalhes e manuseios precisos, Half Of Where You Live talvez demore a encantar os novos seguidores de Gold Panda, afinal, nada do que circula pelo disco parece resgatar o mesmo efeito cativante exposto em músicas como You e I’m With You But I’m Lonely. Entretanto, a maneira como o produtor parece motivado a extrair o máximo de cada arranjo sonoro e ao mesmo tempo esconder pequenas referências pela obra, faz com que uma vez dentro do labirinto instrumental construído pelo disco, sair dele seja o menor dos interesses.

Gold Panda

Half Of Where You Live (2013, Notown)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Boards Of Canada, Baths e Nosaj Thing
Ouça: The Most Liveable City, My Father In Hong Kong 1961 e S950

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