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Disco: “Have You In My Wilderness”, Julia Holter

Julia Holter
Chamber Pop/Dream Pop/Alternative
http://www.juliashammasholter.com/

Julia Holter nunca é a mesma a cada álbum de estúdio. Do som experimental testado em Tragedy (2011), passando pela Ambient Music/Dream Pop retratada no etéreo Ekstasis (2012) até alcançar o jazz sombrio do clássico moderno Loud City Song (2013), difícil encarar o trabalho da artista norte-americana como uma obra de natureza estável. Vozes, arranjos e pequenos fragmentos instrumentais que mudam de direção com naturalidade, a cada novo registro autoral da musicista, em Have You In My Wilderness (2015, Domino) mais uma vez renovada, íntima de um novo acervo de possibilidades.

Parte de um explícito processo de “filtragem” e melódica adaptação do material incorporado por Holter nos últimos anos, com o quarto disco de inéditas, a artista de Los Angeles, Califórnia abraça de vez a delicadeza da música de câmara dos anos 1960 e 1970. Do uso de temas orquestrais, típicos da obra de Scott Walker entre 1967 e 1969, passando pelo pop ensolarado de veteranos como The Beach Boys e The Zombies, cada ato do presente álbum estreita com naturalidade a relação de Holter com o grande público, convidado a mergulhar nas confissões e arranjos doces detalhados pela artista.

Como explícito desde o lançamento de Feel You, faixa de abertura e primeiro single do trabalho, nunca antes Julia Holter pareceu tão acessível quanto em Have You In My Wilderness. A cada nova faixa, a explícita segurança da musicista, distante das pequenas doses de experimento que circundavam músicas como Maxim’s I, Hello Stranger e Horns Surrounding Me, todas do álbum anterior. Coros de vozes, arranjos de cordas, pianos e bateria encaixados de maneira precisa, sutil, estímulo para o nascimento de faixas marcadas pela leveza, caso de Silhouette, ou mesmo peças crescentes, como Sea Calls Me Home.

A busca de Holter por um som cada vez menos complexo não impede que o ouvinte esbarre em longos atos orquestrais/experimentais típicos dos primeiros trabalhos da musicista. É o caso da crescente Betsy On The Roof, música que parece extraída dos instantes finais de Loud City Song. Outra que aproxima Holter de um ambiente “estranho” é Vasquez. Com quase sete minutos de duração, a nona faixa do disco parece apontar a direção para os futuros inventos da norte-americana, dissolvendo vozes e versos em uma base obscura, eletrônica e propositadamente instável, quase íntima dos trabalhos do Portishead no meio dos anos 1990.

Centrado em temas do universo particular de Holter, Have You In My Wilderness sustenta nos versos a obra mais pessoal e ainda aberta da cantora. São versos que falam sobre acontecimentos mundanos, encontros e desencontros de diferentes personagens ou mesmo composições de base existencialista. Em uma linguagem particular e propositadamente mais lenta, a mesma fórmula de versos cotidianos de outros trabalhos entregues nos últimos meses, caso do irônico Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, da australiana Courtney Barnett ou mesmo o ainda recente (e caseiro) Me, álbum de estreia da norte-americana Empress Of.

Diferente de Loud City Song ou qualquer outro trabalho de Julia Holter, Have You In My Wilderness, mais do que esconder determinados temas e conceitos, cresce como uma obra que se revela em essência para o ouvinte, logo na primeira audição. Pequenas ambientações e detalhes específicos podem até parecer ocultos, sedutores ao fundo de cada composição, mas nada que interfira no caminho límpido indicado por Holter do primeiro ao último verso do trabalho.

Have You In My Wilderness (2015, Domino)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Julianna Barwick, Joanna Newsom e Grouper 
Ouça: Feel You, Sea Calls Me Home e Silhouette