Disco: “Haveno”, Constantina

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Constantina
Brazilian/Post-Rock/Experimental
http://www.myspace.com/bandaconstantina

 

Por: Cleber Facchi

Cinco anos parece um tempo mais do que demasiado para separar o lançamento de um disco, de outro. Este, porém foi o tempo necessário para que a mineira Constantina desse vida ao seu mais novo trabalho, Haveno (2011, Independente), um registro que parece estar pronto desde que o primeiro álbum da banda foi lançado em idos de 2006, mas que só agora alcançou seu ponto de maturidade e pode ser apreciado em sua totalidade. Delimitado dentro das mesmas experiências instrumentais do antigo álbum – porém de forma melhor resolvida -, em seu novo álbum a banda de Belo Horizonte cai de vez na experimentação, ao mesmo tempo em que mantém de forma constante sua sobriedade.

Menos extenso que seu homônimo antecessor (disco que ultrapassa facilmente os 60 minutos de duração), o atual trabalho do grupo mineiro mantém em seus exatos 49:36 minutos uma beleza instrumental incontestável, com a banda buscando de forma constante uma musicalidade renovada e que preza por modificar seus próprios limites e características. Tomado por uma tonalidade azul que vai da capa do disco aos sons propostos através dos sete pequenos e extensos tratados musicais do álbum, o registro parece se movimentar sozinho, como se as ondas apresentadas na capa do registro alagassem o conteúdo do trabalho, movimentando suavemente cada uma das canções.

Se anteriormente a sonoridade proposta por André Veloso, Bruno e Daniel Nunes, Gustavo Gazzola, Lucas Morais, Thiago Vieira e Túlio Castanheira revelava um grupo de atenciosos seguidores das ideias instrumentais apresentadas pelo Explosions In Sky ou outros grandes representantes do pós-rock norte-americano, hoje a Constantina e seus integrantes estão longe, muito longe de soar como aprendizes, mas sim como donos de uma temática completamente própria. Cada segundo que passamos dentro das emanações marítimas de Haveno deixam transbordar a imagem e a sonoridade de um grupo que parece delimitar seu próprio caminho, sem em nenhum momento ficar em débito com qualquer outro grande representante do gênero.

Bom exemplo do que define a identidade musical da banda – algo que já se manifestava timidamente no álbum de estreia – está no ampliado uso de temas e transições musicais pelos ritmos brasileiros. Em Monte Roraima, por exemplo, embora a abertura fria da composição deixe transparecer uma fluência completamente atmosférica e restrita, a partir dos exatos 3:25 minutos a banda caí de vez no samba, algo que em diversos momentos vai se anunciando no restante do álbum, o que torna a audição do registro puramente aconchegante, com o grupo mantendo constante o aspecto conceitual de sua obra, porém sendo capaz de construir um som essencialmente flexível.

Mesmo que se proponha como um registro melhor delineado e que parece optar por certa dose de lógica do princípio ao fim, Haveno abre em diversos momentos a oportunidade para que a banda arrisque novos tipos de sons. O melhor exemplo disso está em Juan, El Marinero e Benjamin Guimarães, duas composições que seguem através de um som menos abrasileirado, mas capazes de demonstrar um tipo de som completamente distinto em relação ao que o grupo vem produzindo até o presente momento. Enquanto a primeira transita por uma sonoridade quase pueril e integralmente minimalista, a segunda para além dos já tradicionais sons do grupo flerta de forma competente com a música eletrônica, proporcionando uma carga de renovação no trabalho da banda.

Acompanhado constantemente por uma exaltação instrumental que beira o épico em algumas composições, Haveno não apenas dá continuidade de forma segura ao que a banda vinha desenvolvendo anteriormente, como se apresenta como um novo e melhor constituído trabalho na carreira do septeto. Complexo, delicado e dinâmico na mesma medida, o álbum joga com as texturas e as sensações, transformando seus quase 50 minutos de duração em algo que na verdade soa muito maior, como se a banda aportasse constantemente em diferentes gêneros ou navegasse por diferentes temáticas musicais.

Haveno (2011, Independente)

 

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Labirinto, Hurtmold e Amnese
Ouça: Benjamin Guimarães

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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