"Holger"

Holger

Ano: 2014
Selo: Balaclava Records
Gênero: Indie Pop, Pop Rock
Para quem gosta de: Luziluzia, Do Amor e Os Paralamas do Sucesso
Ouça: Cidade Perdida, Monolito e Café Preto
Nota: 8.3

Disco: “Holger”, Holger

Pouco parece ter sobrevivido da euforia gerada em Sunga (2010) e excessos concentrados no cenário tropical de Ilhabela (2012). Seguindo a lógica inaugurada em The Green Valley EP, de 2008, a banda paulistana Holger alcança o terceiro álbum de estúdio investindo com naturalidade em um som transformado e hoje parcialmente melancólico. Na contramão dos dois trabalhos que o antecedem – uma possível trilha para o final de semana -, a peça autointitulada aos poucos mergulha o coletivo em um ambiente sóbrio, como o cenário típico de uma segunda-feira.

Obra de transição ou possível retrato do amadurecimento de cada integrante, o novo disco flui como uma natural representação das recentes transformações dentro da própria estrutura da banda. Com a saída de Arthur Britto – baterista que deixou o grupo para estudar nos Estados Unidos -, cabe ao quarteto Bernardo Rolla, Marcelo Altenfelder “Pata”, Pedro Bruno “Pepe” e Marcelo Vogelaar “Tché” assumir a total responsabilidade pelo trabalho, ocupando as pequenas lacunas deixadas pelo parceiro.

A interferência das batidas e bases de percussão pode ser menor, porém, a julgar pelas letras dissolvidos pela obra, explícito é o crescimento do grupo. Versos confessionais em Café Preto, desilusões amorosas ao longo de Boca Suja, reflexões tímidas espalhadas por toda Monolito. Quem esperava por uma possível continuação dos temas festivos de Let’em Shine Below e Tonificando vai esbarrar apenas em composições banhadas pelo recolhimento. Da abertura ponderada que direciona Trapaça ao manuseio econômico dos arranjos em Tão Legal, são justamente essas amarguras, fragmentos cotidianos e sentimentos tão comuns que despertam a atenção do ouvinte.

Mesmo que exista um maior “recolhimento” por parte do grupo, difícil encarar o presente disco como uma obra essencialmente triste ou talvez arrastada. Basta se concentrar no cômico caso de amor que orienta os versos de Jurema – a faixa mais “Novos Baianos” já laçada pela banda -, ou mesmo o descompromisso que rege Cama Dura e Preguiça – esta última, um novo diálogo do quarteto com a Axé Music dos anos 1990. Entre instantes breves de melancolia, o Holger ainda continua tão divertido e jovial quanto nos primeiros discos.

Diferente do álbum anterior, curioso notar que mesmo a explícita interferência do produtor Alex Pasternak em nada altera a formação de um som autoral por parte dos paulistanos. Ainda que as melodias atmosféricas de Boca Suja e arranjos condensados em Casa Nova esbarrem no mesmo universo do Lemonade, a banda de Pasternak, basta o triângulo em Cidade Proibida e batidas arrastadas em Preguiça para perceber os conceitos regionais do grupo. Parece Timbalada, lembra Os Paralamas do Sucessos, mas é difícil não relacionar o som das 11 composições do álbum como um material próprio do Holger.

A julgar pela constante aproximação entre as faixas, versos em português e canções que chegam com facilidade até o ouvinte, talvez este seja o trabalho mais acessível já lançado pelo grupo até aqui. A voz tribal e cíclica em Monolito – ampliando o experimento vocal de Beaver -, as guitarras suingadas em Cidade Perdida e até mesmo os tímidos passos de dança que crescem ao longo de Bruto. Em um exercício atento, o quarteto parece sintetizar (e aprimorar) os principais elementos apresentados nos dois primeiros discos de estúdio, abandonando o rótulo de “Vampire Weekend brasileiro” de forma a reforçar identidade.