"In Colour"

Ano: 2015
Selo: XL / Young Turks
Gênero: Eletrônica, IDM
Para quem gosta de: The XX e Four Tet
Ouça: Gosh, Loud Places e I Know There's Gonna Be
Nota: 9.5

Disco: “In Colour”, Jamie XX

Coexist, segundo álbum do The XX, talvez nem estivesse nos planos do trio britânico quando Jamie Smith lançou a primeira música em carreira solo. Durante uma rápida entrevista à rádio inglesa XFM, em setembro de 2010, o jovem produtor não apenas revelava ao público o autoral single Far Nearer, como ainda sussurrava de forma tímida e claramente indecisa o nome escolhido para esse novo projeto: Jamie XX. Seis anos mais tarde, a timidez do músico londrino permanece evidente em cada ato, canto ou sample reciclado no interior de In Colour (2015, XL / Young Turks), todavia, o mesmo não pode ser dito sobre a suposta indecisão do artista.

Do ritmo crescente que abre o trabalho na faixa Gosh, seguindo pelo cruzamento de ritmos que vai do Pós-Dubstep (Hold Tight) ao Hip-Hop (I Know There’s Gonna Be Good Times), passando pelo minimalismo de Girl, já conhecida faixa de encerramento do disco, o britânico sabe exatamente onde quer chegar. Confortável e rodeado por colaboradores de longa data – entre eles o produtor Kieran Hebden (Four Tet) e os parceiros do The XX, Romy Madley Croft e Oliver Sim -, Smith revela em essência o universo de referências coloridas que há tempos ocupa sua mente.

Sem necessariamente fugir do material criado com o The XX, nítido é o esforço do artista em  produzir um som particular, talvez inédito. Evidência marcante desse resultado aparece estampada logo na capa do disco. Como um recado ao público que teme pelo fim das atividades do trio, o produtor confirma de maneira sutil que “ainda faz parte do grupo”, um dos braços que completa o principal símbolo do trio inglês, entretanto, longe de Sim e Croft, são as cores, e não o tom cinza, que orientam a direção de Smith. Não por acaso cada música de In Colour aponta para um som específico, isolado, como se a busca pela suposta identidade musical do produtor estivesse longe do fim.

Concebido de forma irregular nos últimos anos, fragmentado em blocos específicos de composições, In Colours soa como uma extensão dos diferentes projetos de Jamie XX. Nos instantes de maior melancolia, a busca quase instintiva pelos parceiros de banda, vide a interferência de Romy Madley Croft em Loud Places – uma típica canção do debut de 2009 -, ou mesmo do próprio Oliver Sim na obscura Stranger in a Room, praticamente uma sobra de Coexist. Em faixas como Gosh, Obvs e Girl um novo diálogo com We’re New Here (2011), álbum-remix lançado em parceria com o falecido Gil Scott-Heron. No restante da obra: surpresa.

Longe de sufocar em uma provável zona de conforto, Smith utiliza do registro de forma a brincar com os próprios limites, trabalhando em cima de velhas bases conceituais. Efeito dessa constante ruptura sobrevive de forma comercial, quase pop, nas melodias, samples e rimas de I Know There’s Gonna Be (Good Times). Faixa mais acessível de todo o disco, a composição que resgata trechos de Good Times – música lançada em 1972 pelo coletivo The Persuasions – logo se entrega aos domínios de Young Thug e Popcaan, artistas convidados especialmente para a canção e, temporariamente, donos de toda a obra.

Mesmo a aproximação de Smith com o UK Garage/Dubstep parece alterada com o passar do disco. Músicas que apontam para uma sonoridade ainda mais intensa, urbana, ponto de equilíbrio nas dançantes The Rest Is Noise e Hold Tight. Outro elemento sedutor da obra são os samples. É fácil se perder pelo disco, passar horas pesquisando sobre cada música (antiga) utilizada por Smith, tão íntimo de clássicos da década de 1970 – vide Could Heaven Ever Be Like This (1977) do músico Idris Muhammad em Loud Places -, como de faixas ainda “recentes” – caso de Karma (2003) da cantora Alicia Keys em Sleep Sound.

Apresentado ao público em um ano de grandes lançamentos e obras de profundo impacto criativo, In Colour pode não sustentar o mesmo discurso afiado de To Pimp a Butterfly do rapper Kendrick Lamar, tampouco a melancolia crua de Sufjan Stevens em Carrie & Lowell, entretanto, está longe de ser encarado como um registro “inferior”. Apoiado em uma linguagem própria, brincando com o uso flexível de samples e arranjos que costuram elementos do Indie, Soul, IDM e Hip-Hop de diferentes décadas, Jamie XX talvez tenha criado o álbum que melhor define toda a pluralidade de conceitos e rica identidade da música atual.


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