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Disco: “In Conflict”, Owen Pallett

Owen Pallett
Indie/Chamber Pop/Singer-Songwriter
http://www.owenpalletteternal.com/

Por: Cleber Facchi

Owen Pallett

O trabalho de Owen Pallett sempre foi guiado pelas confissões. Desde que apareceu para o mundo com o onírico Final Fantasy – e seus dois discos, Has a Good Home (2005) e He Poos Clouds (2006) -, a obra do músico canadense borbulha com naturalidade as particularidades de seu criador, preferência por vezes oculta nas alegorias fantasiosas e arranjos mágicos que flutuam cuidadosamente por entre as faixas. Contudo, desde a chegada de Heartland (2010), primeiro álbum “solo” do músico, Pallett parece inclinado a perverter essa ordem, transformando o sofrimento confessional de cada composição na passagem para um universo realista, mas não menos encantador para o ouvinte.

Com o recém-lançado In Conflict (2014, Domino), segundo álbum dentro da “nova fase”, Pallett não apenas se revela por inteiro ao público, como usa das experiências confessionais de forma a converter realidade em ficção. Personagem central da própria trama, o músico se acomoda em canções pessimistas (I Am Not Afraid), mergulha no turbilhão da própria mente (Infernal Fantasy) e ainda derrama emanações amorosas (The Passions) sem parecer sufocado pela redundância. Owen é apenas um personagem corriqueiro, um indivíduo cercado por conflitos simples e adversidades diárias – talvez, por isso, seja tão incrível embarcar em sua aventura particular.

Diferente do disco passado, em que o amor, mesmo sufocante em alguns aspectos, parecia encarado com exaltação pelo músico, em In Conflict o sentimentalismo de Pallett quebra a felicidade para crescer como uma obra livre de esperança. Trata-se de um disco em que o artista abandona a própria fé. “O mundo vai esquecer qualquer bem que você tenha feito“, expressa o amargurado poeta em um trecho de The Riverbed, faixa que parece assumir parte das alterações conceituais do novo disco. Mesmo quando ecoa esperançoso, em The Sky Behind the Flag, Pallett sempre tende ao (próprio) desprezo, fazendo valer o título dramático da obra – “Em conflito“.

Todavia, curioso observar que mesmo exposto como uma obra “triste” e “pessimista” em se tratando dos versos, In Conflict está longe de ser encarado como um álbum sufocante dentro de seus limites instrumentais. A julgar pelo andamento ascendente da faixa-título, ou a fluência “solar” de Song For Five & Six, o novo álbum do canadense é uma obra de pequenas glórias. Em um sentido explícito de continuação ao exercício iniciado em Heartland, o presente disco usa dos arranjos ora orgânicos, ora sintéticos como um salto criativo. Uma colagem (proposital) que beira o desequilíbrio, mas apenas auxilia o músico a consolidar um pano de fundo temático para a história cheia de altos e baixos que os versos buscam proclamar.

Responsável por grande parte da formação instrumental do disco, Pallett está longe de assumir os créditos da obra individualmente. Parte expressiva da transformação em relação ao presente álbum vem da presença de Brian Eno, colaborador ativo em grande parte da obra. Além de dividir o uso dos sintetizadores, o músico inglês espalha acordes ocasionais de guitarras e vozes, auxiliando o canadense a desenvolver um ambiente homogêneo e compatível ao tratamento agridoce dos temas. Dessa forma, In Conflict se arma como uma obra típica do Chamber Pop do novo século, ao mesmo tempo em que revela orquestrais raros quando próximo do outros lançamentos recentes. Há quem se desmanche em elogios ao trabalho de Patrick Wolf, Florence Welch e outros nomes do gênero, entretanto, apenas Owen Pallett parece capaz de revelar surpresas de fato ao estilo.

Efeito das recentes andanças do compositor – que nos últimos anos atuou em obras como Reflektor (2013) do Arcade Fire, na trilha sonora de Her (2013), além de desenvolver arranjos para o The Mountain Goats -, In Conflict é uma obra que rompe com o hermetismo natural de Pallett, ainda assim, íntimo da estética que o consolidou. Tão confessional, quanto partilhado conceitualmente, o trabalho usa dos dramas reais do artista como um diálogo coeso com o público, convidado a folhear as páginas da obra ou mergulhar no contexto honesto de cada capítulo assinado pelo músico/personagem.

 

In Conflict

In Conflict (2014, Domino)

Nota: 8.4
Para quem gosta de: Sufjan Stevens, Beirut e Jens Lekman
Ouça: I Am Not Afraid, In Conflict e The Passions

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