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Disco: “Jiaolong”, Daphni

Daphni
Electronic/Experimental/Techno
http://www.caribou.fm/

Por: Cleber Facchi

Dan Snaith parecia ter alcançado o ápice como produtor há dois anos, quando à frente do Caribou (uma de suas muitas “identidades”) apresentou a obra-prima Swim (2010). Conjunto bem desenvolvido de batidas coesas, efeitos percussivos que se abrem a novas experiências e vozes que se mantém próximas dos efeitos sintéticos, o registro esbanja desde a grandiosa Odessa até a canção de encerramento Jamelia uma tonalidade de acertos que naturalmente o transformaram em um dos discos daquele ano. Entretanto, o que parecia fluir como um ponto criativo isolado na carreira do canadense nada mais era do que uma sequência de acertos que se acumulavam desde idos da década passada, primeiro com Up in Flame (em 2003, pelo Manitoba) e posteriormente com série de discos do Caribou que levariam Snaith a deixar marcas expressivas na eletrônica recente.

Se ascendente e repleta de acertos é a carreira do produtor, com a chegada do primeiro registro oficial pelo projeto Daphni, Snaith comprova mais uma vez que ainda está longe de esbarrar em um resultado pouco inventivo ou que não tome conta de nossos ouvidos. Mais distinto e particular trabalho do produtor até agora Jiaolong (o título vem do próprio selo do canadense) arrasta Dan para um cenário que mesmo constante na carreira do norte-americano, parece em alguma medida distante: as pistas. Ainda que todos os anteriores lançamentos do artista esbarrem na eletrônica de forma dançante e atrativa (vide o último trabalho com o Caribou), o “relacionamento” com a psicodelia moderna, o experimental e até passagens pela folktrônica sempre o impediram de alcançar um resultado mais direto e possivelmente comercial, algo que Snaith perverte por completo com o novo disco.

De cara as batidas secas e o sample pegajoso de Yes I Know definem todos os limites do trabalho, um registro que flutua sem medo entre o Techno, a IDM, toques de música pop e o Afrobeat com a mesma sutileza e concisão. Ora dialogando de forma direta com referências vindas da música africana (Cos-Ber-Zam – Ne Noya), ora entregue aos mesmos inventos futurísticos que percorrem os momentos mais leves com o Caribou (Long), Snaith mostra que dentro do Daphni não temos a manifestação única de um projeto singular, mas centenas deles. Mesmo com um número magro de composições (são apenas nove faixas), Dan ocupa de cada mínimo espaço no trabalho para acrescentar uma soma ilimitada de possibilidades, logo, a presença e a grandiosidade do registro se expandem de maneira inegável.

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Contra todos os anteriores experimentos do canadense, com Jialong Snaith apresenta o projeto mais simples e direto da carreira. Por mais que algumas canções como Light (uma das melhores do álbum) e Jiao desemboquem em um rio de sonorizações complexas, até o encerramento da obra a proposta de um acabamento rápido e descompromissado é o que prevalece. Dentro dessa lógica de criações mais “simples” e a constante preservação de um som que convida o ouvinte para a dança temos em Ye Ye o melhor exemplar de todo o registro. Explorada de forma crescente, a faixa mantém na sobreposição de beats e vozes esporádicas (“ié ié”) uma solução simples, mas que involuntariamente nos convida a dançar, preferência que lentamente ocupa todos os espaços do disco.

Pela forma como o trabalho abraça as batidas com intensidade e principalmente pela maneira como se entrega aos acertos do soul e afrobeat em alguns instantes, Jiaolong soa como um irmão negro daquilo que Kieran Hebden conseguiu desenvolver dentro do disco Pink, mais recente álbum do Four Tet. Enquanto a recente obra do produtor britânico mantém no minimalismo detalhista o grande mecanismo e acerto do disco, Snaith parece ir além dessa lógica, formalizando o surgimento de um trabalho que lida abertamente com o exagero das formas e construindo assim criações épicas como Pairs e Yes I Know.

Mais do que se materializar como um grande registro, Jiaolong surge como um testemunho físico da versatilidade de Dan Snaith, artista que parece romper com boa parte dos limites propostos em suas anteriores obras. Parcialmente distante dos experimentos que o tornaram conhecido dentro do cenário eletrônico (são raros os momentos em que a herança de Caribou ou Manitoba surgem pelo álbum), o norte-americano assume ao longo do presente trabalho uma postura que talvez parecesse impossível de ser imaginada há alguns anos. Com um pé bem fixo na Africa e outro nas pistas, Snaith apresenta um registro que já surge pronto para a dança, estrutura assumida na faixa de abertura e que se mantém concisa e estável até que a última batida seja emulada. Snaith conseguiu acertar, mais uma vez.


Jiaolong (2012, Merge)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Four Tet, Caribou e Goldpanda
Ouça: Yes I Know, Pairs e Light

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