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Disco: “Kindred”, Passion Pit

Passion Pit
Indie Pop/Electronic/Pop
http://www.kindredthealbum.com/

 

Melodias sorridentes, versos entristecidos. Desde a consolidação do primeiro grande single do Passion Pit, I’ve Got Your Number, faixa de abertura de Chunk of Change EP (2008), o contraste entre os arranjos e as letras sempre pareceu funcionar como base temática para o grupo de Cambridge, Massachusetts. Talvez reflexo do transtorno bipolar que sufoca o vocalista e líder Michael Angelakos desde a adolescência, o conceito dicotômico que inspirou Manners (2009) e Gossamer (2012) pela primeira vez assume novo formato na construção do inédito Kindred (2015, Columbia).

Por vezes maquiado em meio sorrisos falsos e sintetizadores festivos, este talvez seja o trabalho mais doloroso já apresentado pela banda. De composição econômica – são 10 faixas e pouco menos de 40 minutos de duração -, cada peça do álbum se encaixa de forma a representar uma fase específica na vida de Angelakos – autor e personagem central do trabalho. Na verdade, a julgar pela nostalgia explícita na inaugural Lifted Up (1985) – “Eu estive longe por tantos anos / Mas eu acho que vou esperar um pouco mais” – um passeio (autorizado) por diferentes aspectos da juventude do cantor, marca reforçada no título e imagem “familiar” do álbum.

Sem necessariamente escapar do presente, Angelakos se inclina em direção ao passado – recente ou perdido ao longo de décadas da própria vida. São faixas costuradas pela saudade (All I Want), versos que dialogam diretamente com a adolescência conturbada do artista (Dancing on the Grave, Whole Life Story) ou apenas crônicas particulares, faixas adaptadas de forma precisa, entregues ao contexto do ouvinte (My Brother Taught Me How to Swim). Uma obra evidentemente esquiva do  imediatismo eufórico da trinca inicial do GossamerTake a Walk, I’ll Be Alright e Carried Away -, entretanto, um trabalho ainda atento e comovente.

Mesmo que a amargura se espalhe como água, ocupando e molhando grande parte do trabalho, Kindred está longe de parecer um disco essencialmente amargo, capaz de sufocar o “ouvinte médio”. Das batidas dançantes em Lifted Up (1985), passando pelo hit imediato que é Until We Can’t (Let’s Go) – curiosa parceria com o compositor veteranos Hans Zimmer -, inúmeras são as armadilhas espalhadas pelo disco para seduzir o espectador. Não faltam músicas de texturas pegajosas, versos fáceis e todo o aparato tradicional do grupo.

Instável, talvez redundante durante as primeiras audições, Kindred aos poucos se revela o trabalho mais criativo e versátil do grupo. Salve o distanciamento do “R&B” iniciado em faixas como Cry Like a Ghost, do disco anterior, parte expressiva do álbum parece voltada ao uso de novas experiências. Além do novo detalhamento eletrônico das bases – muito mais frenético, quase um diálogo com Adventure, estreia do produtor Madeon -, as “baladas” garantem um charme especial ao disco, reforçando o conceito intimista da obra – um retrato da família de Angelakos e, também, do próprio ouvinte.

Pela primeira vez distante do rótulo de “banda indie”, Kindred é o trabalho em que o Passion Pit mais se aproxima do universo e conceitos da música pop. Barreiras, possíveis experimentos e fatores que possam “complicar” a passagem para o grande público são logo derrubadas na abertura do álbum, preferência que em nenhum momento distorce o caráter confessional e completa delicadeza da obra, reflexo de uma banda hoje “simplificada”, mas não menos estimulante e madura.

 

Kindred (2015, Columbia)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Madeon, Matt & Kim e Discovery
Ouça: Lifted Up (1985), Until We Can’t (Let’s Go) e All I Want


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