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Disco: “Lira Auriverde”, Onagra Claudique

Onagra Claudique
Indie/Alternative/Indie Pop
http://onagra.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Canções avulsas, versos prontos, obras descartáveis. Em um contexto sempre dinâmico de registros feitos para o compartilhamento imediato, avaliados apenas pelo número “likes” do usuário, a simples ideia de um disco que “exige tempo” ao ser apreciado parece causar um frio enorme na espinha do espectador. Como administrar composições que ultrapassam os limites do “radiofônico”, apelam para seis, sete, oito minutos de versos descritivos e nenhum refrão? Onde estão as rimas óbvias, o encaixe usual das vozes, além do solo rápido de guitarra? Detalhes plásticos, feitos para grudar como chiclete.

Longe de ser encarado como uma obra anti-comercial, hermética, este é exatamente o plano a ser desbravado pelo ouvinte em Lira Auriverde (2014, Independente), registro de estreia do grupo paulistano Onagra Claudique. Montado em um conjunto de faixas extensas, lírica não apelativa e temas que mergulham no existencialismo natural de jovens adultos, cada segundo do trabalho de dez faixas parece feito para ser explorado pelo espectador, durante todo o percurso da obra, afastado de respostas prontas e temas emergenciais.

Dentro desse enquadramento, não seria um erro interpretar o disco como uma obra “difícil”. Embora acessível em uma primeira audição – vide Poxa e Arrebol -, Lira Auriverde é um trabalho incapaz de entregar ao ouvinte mais afobado todas as respostas. Pelo menos em uma primeira audição. Trata-se de uma obra densa, volumosa e de lírica quase “textual”. De certa forma, um pequeno livro musicado, composição explícita ainda nas inaugurais Urtica Ardens e Teses Taxistas, faixas que parecem reforçar cada palavra como um fruto carnoso – feito para ser absorvido e saboreado lentamente.

Todavia, quem acompanha o trabalho de Roger Valença e Diego Scalada não poderia esperar nada diferente. Desde que as primeiras canções, como Umwelt e Mais Cinco Minutos, apareceram no EP de estreia, A Hora e a Vez de Onagra Claudique (2012), o óbvio, o imediato e a compreensão resumida nunca fizeram parte do trabalho da banda. Lira Auriverde, como qualquer invento prévio da dupla, é uma obra que convida o ouvinte a se perder dentro dela. Sem um refrão de apoio e letra carimbada, cabe ao espectador desvendar cada nuance lírica das canções. Faixas encorpadas por histórias, confissões e temas tão próximos dos próprios criadores, quanto do ouvinte.

Exemplo claro disso se esconde em composições como Estélio Prates, O Literato e Arrebol. Enquanto a primeira brilha como uma pequena crônica musicada, refletindo os encontros e desencontros de um casal qualquer; a segunda nasce como um passeio detalhado pelas ruas (e subterrâneos) de São Paulo. Temas simples, porém, esquivos do cruzamento simples entre “amor”, “dor” ou qualquer lírica barata. Um meio termo aprazível entre a ironia jovial do Belle And Sebastian – em If You’re Feeling Sinister (1996) – e a extensa obra de Randy Newman – em estúdio, como Sail Away (1972), ou emoldurando versos descritivos/cotidianos para os filmes da Pixar.

Da mesma forma que os versos, Lira Auriverde é uma obra que brinca ao disfarçar seus instrumentos. Arranjos cíclicos, precisos e sempre delicados. Fragmentos de guitarra e violão que poderiam ser de Bon Iver ou Clube da Esquina, mas que pertencem ao grupo paulistano e foram ressaltadas pela dupla de produtores Fabio Pinczowski e Mauro Motoki (ambos da Ludov). Com acerto, uma obra de fragmentos minuciosos, frágil, porém imensa a cada melodia compactada e verso sussurrado que preenche com detalhes os ouvidos e mente do espectador.

Lira Auriverde (2014, Independente)

Nota: 8.4
Para quem gosta de:
Ouça: Teses Taxistas, Sagração e Arrebol


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