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Disco: “Loom”, Fear Of Men

Fear Of Men
Indie/Post-Punk/Dream Pop
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http://www.fearofmen.co.uk/

Por: Cleber Facchi

Fear Of Men

Existe uma distância imensa e ao mesmo tempo certa dose de conforto em relação ao ambiente musical de Early Fragments, de 2013, e o recém-lançado Loom (2014, Kanine), “novo”/álbum de estreia do Fear Of Men. Enquanto o registro entregue há poucos meses parecia funcionar como uma coletânea de singles e espécie de estreia exclusiva em território europeu, o presente invento vai além de uma reaproveitada obra de apresentação mundial. Trata-se de um disco que transforma o parcialmente desvendado conjunto de emanações sombrias lançadas pela banda britânica, mergulhando o ouvinte em um cenário de pequenas incertezas.

A julgar pelo resgate de faixas como Green Sea e Seer, o recente invento se revela como uma explícita continuação do trabalho anterior, todavia, bastam os minutos iniciais da dobradinha Alta e Waterfall, além da comunicação amarga entre os arranjos para perceber que os rumos agora são outros. Ainda aos comandos de Jessica Weiss e Daniel Falvey, porém, acompanhados apenas por Michael Miles, a banda original de Brighton deixa de lado os temas típicos de pós-adolescentes para mergulhar com segurança na fase adulta.

Em uma comunicação atenta com tudo aquilo que a cena britânica proporcionou ao longo dos anos 1980 – principalmente The Smiths -, cada minuto do trabalho abraça a melancolia como uma forma de sustento. São versos enclausurados pela depressão, abandono e isolamento, ferramentas típicas de uma banda iniciante, mas que se transformam enquanto a banda acrescenta conceitos psicanalíticos (Sigmund Freud) e literários (Sylvia Plath, Anais Nin) em um esforço autêntico. Uma típica obra marcada pela colagem de influências, mas que em nenhum momento tropeça na falta de identidade.

Preso em um ambiente musical particular, porém livre em se tratando dos versos assumidos por Weiss, Loom – do inglês, agigantar, elevar – é um disco que força o existencialismo de sua autora como ferramenta própria de exorcização. Tratando a si mesma como personagem em um ambiente que parece artificial – experiência evidente em Vitrine e Descent -, a cantora estabelece um curioso laço com o ouvinte. Trata-se de uma obra de adaptação, de sobrevivência não apenas dentro do “mundo dos adultos”, mas de qualquer ambiente instável que possa corromper ou balançar a segurança emocional do ouvinte.

Longe de parecer redundante ou enfadonho ao musicar conceitos já estabelecidos por outros músicos e escritores, como Plath em A Redoma de Vidro (1963), Loom é um registro que cresce perceptivelmente em cima das melodias. Já reforçadas (e mencionadas) no manuseio autêntico de Early Fragments, os arranjos melódicos – de cordas ou de vozes -, quebram pontualmente a morosidade em todos os instantes da obra. Basta observar a métrica simples de Waterfall, faixa que usa dos versos “I’m not alone in this” e “when it’s over” como um ingrediente sonoro, hipnótico durante a construção musical da faixa. O mesmo exercício se repete por toda a obra, solucionando a fluidez de músicas como Descent, Luna e demais “hits” do trabalho.

Maduro, ainda que encarado como um genuíno registro de estreia, Loom atravessa a década de 1980, encara a ironia fina do Belle and Sebastian, resgata as melodias do Camera Obscura, até firmar terreno em um ambiente que ecoa tão próprio, quanto compartilhado. Uma sensação de que todas as experiências encaradas pela banda ao longo da obra já foram testadas previamente – por eles ou mesmo por outros artistas. Contudo, ao dar o gancho certo na hora de conceber os versos e sons, nada do que recheia o disco pode ser encarado como cópia, apenas o mais honesto e puro acervo de novidades.

 

Loom (2014, Kanine)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Camera Obscura, The Pastels e The Smihts
Ouça: Waterfall, Descent e Inside