Disco: “Love Streams”, Tim Hecker

Artista: Tim Hecker
Gênero: Experimental, Drone, Ambient
Acesse: http://sunblind.net/

 

Mesmo responsável por uma sequência de obras que marcaram o começo dos anos 2000, caso de Haunt Me, Haunt Me Do It Again (2001) e Harmony in Ultraviolet (2006), Tim Hecker passou os últimos seis anos se reinventando de forma tão criativa quanto em início de carreira. São trabalhos lançados em parceria com Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) – Instrumental Tourist (2012) -, além de uma sequência de obras maduras – Ravedeath, 1972 (2011) e Virgins (2013) – que se completam com a chegada de Love Streams (2016, 4AD / Paper Bag).

Terceiro “capítulo” da série de registros gravados no Greenhouse Studios, em Reykjavík, Islândia, o álbum tecido por ruídos, distorções e sobreposições etéreas lentamente afasta Hecker do som produzido até o último registro de inéditas. Trata-se de uma passagem para um cenário marcado pelo uso de vozes e ambientações eletrônicas, uma edição condensada de grande parte do material produzido pelo músico na última meia década.

Obra de segredos e encaixes minimalistas, detalhes que flutuam ao fundo da onda de distorções que cobre o disco, Love Streams, diferente dos dois últimos discos de Hecker, encontra na interferência restrita dos vocais um poderoso componente. Junto do produtor, Kara-Lis Coverdale e Grímur Helgason, colaboradoras desde Virgins, espalham uma corredeira de vozes que se movimentam de acordo com as exigências de Hecker. Um canto sombrio, por vezes operístico, como se um novo “instrumento” fosse explorado ao longo da obra.

Em Castrati Stack, oitava faixa do disco e composição escolhida para apresentar Love Streams, uma perfeita síntese do canto experimental que se projeta ao longo da obra. Canção mais intensa do disco – junto de Music of The Air -, a peça de quatro minutos encolhe, cresce, passa por um labirinto de sintetizadores, ruídos claustrofóbicos e estática até desembocar em uma solução de vozes atmosféricas, semi-angelicais, como o remix de um canto fúnebre gravado dentro de uma igreja. De fato, a temática religiosa se revela em grande parte do disco. Uma confessa extensão do mesmo conceito assumido por Kanye West em 2013, durante o lançamento do álbum Yeezus.

No restante da obra, Hecker se concentra em explorar novas possibilidades. São faixas como Obsidian Counterpoint e Voice Crack em que o uso disforme dos sintetizadores transporta o ouvinte para um território de emanações “dançantes”. Outras como Collapse Sonata e Bijie Dream aproximam Hecker da música experimental dos anos 1970, como uma ponte para o trabalho de veteranos do Krautrock. Sobram ainda músicas como Up Red Bull Creek e a série Violet Monumental, possíveis fragmentos da ambientação cinza testada pelo canadense nos dois últimos trabalhos de estúdio.

Trabalho mais curto de toda a discografia de Tim Hecker – são apenas 42 minutos de duração -, Love Streams revela uma inquietação que há tempos não se via dentro dos trabalhos do produtor. São movimentos rápidos, certa dose de urgência e faixas de dois ou três minutos que tingem com “jovialidade” grande parte do trabalho. Como anuncia o texto que apresenta o disco, interpretação de Hecker sobre o universo da música pop e vozes maquiadas pelo uso do auto-tune.

 

Love Streams (2016, 4AD / Paper Bag)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Oneohtrix Point Never, Ben Frost e Fennesz
Ouça: Castrati Stack, Voice Crack e Black Phase


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