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Disco: “Love This Giant”, David Byrne & St. Vincent

David Byrne & St. Vincent
Alternative/Rock/Experimental
http://www.davidbyrne.com/
http://ilovestvincent.com/

Por: Cleber Facchi

As parceiras sempre foram parte fundamental na carreira de David Byrne. Da relação construída ao lado de Brian Eno desde findos da década de 1970 – quando juntos esculpiram as duas melhores obras do Talking Heads, Fear Of Music (1979) e Remain in Light (1981) – aos constantes diálogos com artistas brasileiros (principalmente Caetano Veloso e Tom Zé), o músico de origem escocesa sempre ampliou os limites de sua obra ao lado de uma série de colaboradores e necessárias trocas de experiências. A predisposição é tanta, que desde o lançamento de Everything That Happens Will Happen Today (2008), último registro solo em colaboração com o ex-Roxy Music, Byrne tem de fato se interessado em misturar sua música, relação que estabelece no recente DVD ao lado de Cateano Veloso (Live at Carnegie Hall) e na aproximação com Annie Erin Clark (St. Vincent) pelo disco Love This Giant (2012, 4AD/Todo Mundo).

Menos hermética e consequentemente muito mais atrativa do que a contribuição gerada há quatro anos com o Eno – My Life in the Bush of Ghosts de 1981 ainda prevalece como o maior encontro da dupla -, no decorrer do novo disco tanto Byrne quanto Clark parecem tão à vontade que até soam como em seus respectivos trabalhos individuais. Utilizando das guitarras carregadas pelo fuzz límpido da norte-americana em união com a sonoridade suingada e experimental do compositor, o registro de 12 faixas amarra referências do passado e do presente de ambos, resultando em uma síntese que de tão assertiva e coerente que parece fluir de maneira homogênea. De um lado uma versão dançante de Strange Mercy (2011), do outro uma versão renovada dos primeiros discos do veterano da New Wave/World Music.

Love This Giant é contra qualquer crítica e possível oposição o melhor exemplar da herança proposta por Byrne (e os parceiros do Talking Heads) há três décadas. Das guitarras competentes conduzidas de forma dançante, aos passeios pela música negra até a expansão do pop-experimental que se desenvolve ao longo do álbum, tudo se relaciona de forma continuada e ainda assim inventiva com o que fora proposto em idos dos anos 1980 pelo extinto quarteto nova-iorquino. Longe de parecer como uma versão renovada de Tina Weymouth (ex-baixista e vocalista das cabeças falantes), Clark se assume como uma espécie de lado feminino do veterano músico, ocupando o mesmo espaço que o artista no decorrer do disco, bem como uma influência e pressão tão grande quanto a do próprio Byrne.

Partindo desse pressuposto de que ambos ocupam posições iguais no decorrer da obra, tanto o músico como Clark parecem livres para acrescentar e transformar as mais variadas referências que há décadas os acompanham. Logo, por mais que algumas composições puxem de forma definitiva para os inventos de um ou de outro artista, a miscelânea de ruídos e sons descomunais que passeiam pela obra acabam se manifestando como um real encontro das variedades que definem as particulares criações de cada metade. Cabe ao produtor John Congleton (que já trabalhou The Walkmen, Modest Mouse, além de anteriores álbuns do próprio Byrne) estabelecer limites ou um padrão imaginário ao disco, que mesmo inventivo e recheado por tonalidades distintas, mantém até o fechamento um tratado coerente e naturalmente atrativo aos mais distintos públicos.

Mesmo que as letras exploradas com o passar da obra tragam contribuições à carreira do casal, é na instrumentação que Love This Giant acerta e nos prende. Se os metais que banham a faixa de abertura Who já parecem um atrativo aos ouvidos, a eletrônica que costura Lazarus, as guitarras que acompanham The Forest Awakes e principalmente a percussão de Dinner For Two trazem os elementos que faltavam ao disco. Tudo é posicionado de maneira cativante, quase como um convite às pistas (sem os exageros da eletrônica), como se o casal nos convidasse a interpretar o mesmo jogo de passos tímidos que preenchem o clipe de Who. Leve e descompromissado, o disco soa a todo instante como uma extensão do que Remain in Light revolucionou há três décadas, se desvencilhando dos artifícios conceituais de outrora para simplesmente nos encantar – pelos versos ou pelo registro instrumental.

Talvez pelo contraste constante das vozes e (obviamente) pela sonoridade, em alguma medida Love This Giant muito se assemelha aos inventos do Dirty Projectors pós-Rise Above – banda claramente influenciada pela fase áurea do Talking Head. A semelhança entre os projetos (bem expressa no fluxo quente dos vocais e as climatizações quase étnicas da obra) se manifesta como um exemplo da capacidade de David Byrne em soar tão relevante quanto em um passado recente, quando transformou a cena nova-iorquina e estabeleceu uma série de bases para o que diversos grupos ainda hoje manifestam em suas composições. Clark, mais do que um elo para aproximar o veterano da recente geração, inventa e soa tão relevante quanto o colaborador, estabelecendo com a parceira uma aprimorada continuação do que explorou no último ano e firmando as bases para um dos projetos mais criativos do ano.

Love This Giant (2012, 4AD/Todo Mundo)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Dirty Projectors, Talking Heads e St. Vincent
Ouça: Who, Lazarus e Weekend In The Dust

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