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Disco: “Love’s Crushing Diamond”, Mutual Benefit

Mutual Benefit
Indie/Folk/Alternative
http://mutualbenefit.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Mutual Benefit

É no mínimo surpreendente perceber o quanto o norte-americano Jordan Lee conseguiu transformar as emanações típicas de ambientes bucólicos em música. Mente solitária aos comandos do Mutual Benefit, o cantor e compositor centrado em Nova York assume no recém-lançado Love’s Crushing Diamond (2013, Soft Eyes) uma espécie de abrigo particular. Autor de um cenário esverdeado, posicionado no alto de uma colina, o artista delicadamente passeia por um jogo de experiências sublimes, tratando no manuseio ameno dos instrumentos, vozes e temas, uma fuga (intencional) de qualquer grande centro urbano.

Adepto do mesmo detalhamento reconfortante exposto por Sufjan Stevens com o lançamento do disco Michigan, há uma década, Lee assume no presente álbum uma extensão natural da série de pequenos registro e singles que vem desenvolvendo há bastante tempo. São canções orquestradas por acordes simples de violão, mas que encontram no uso de sintetizadores, percussão e samples coloridos a certeza de um caminho não óbvio para o espectador. É como se a cada composição o músico absorvesse décadas específicas, gêneros e interferências orgânicas em um efeito de detalhismo contínuo, sempre íntimo das emanações matinais.

Posicionado em um cenário de forte proximidade com as mesmas construções musicais de grupos como Fleet Foxes, o álbum esquiva da poesia barroca em prol de um cenário acolhedor, simplista como ferramenta. Do interlúdio doce que cresce em Strong River ao teor orgânico instalado em Strong Swimmer, cada música do álbum brinca com o ouvinte em uma composição aconchegante, como se Lee, longe de possíveis exageros, acabasse transformando cada instante da obra em um objeto efêmero, próximo de se esfarelar nas mãos (e ouvidos) do espectador. Como caminhar descalço pela relva, Love’s Crushing Diamond é um disco de pequenas sensações.

Com pouco mais de 30 minutos de duração – parece ser menos -, o registro encontra no posicionamento crescente dos arranjos um efeito de surpresa. Da percussão ao uso das detalhado das guitarras, cada faixa do disco dá um passo seguro em relação ao próprio crescimento da obra, o que faz com que ao chegar em Strong Swimmer, canção de encerramento, o ouvinte seja naturalmente surpreendido por catálogo imenso de instrumentistas e experiências sensoriais antes inexistentes. Claro que músicas como Advanced Falconry, ainda na metade inicial da obra, assumem todos os mesmos elementos em um exercício comum de acerto, sem necessariamente romper com a estética ascendente do álbum.

Mais do que uma morada para instrumentos tratados com plena leveza, o novo registro do Mutual Benefit é uma obra costurada de forma doce pelos vocais. Ainda que cada música do registro suspire vocalizações complementares aos instrumentos, a partir de That Light That’s Blinding as vozes realmente se destacam, arrastando ainda mais o espectador para o cenário bucólico do registro. Abertura para a sequência final do disco, que ainda emenda em “Let’s Play” / Statue of a Man e C. L. Rosarian, o grupo de canções encontra no uso de vozes femininas um toque de aprimoramento, como se a serenidade inicial, mesmo assumida, aos poucos fosse encorpada por novas referências. Tudo aquilo que Phil Elvrum testou com o The Microphones ou mesmo com o Mount Eerie, porém, rompendo com o estágio artesanal em um resultado tímido de grandeza.

Desenvolvido em uma atmosfera natural de isolamento, Love’s Crushing Diamond é, mais do que uma simples obra, um cenário de possibilidades a serem lentamente desvendadas pelo ouvinte. De maneira proposital, cada música se abre em um jogo amplo de texturas e emanações marcadas pelo cuidado, exercício que faz de cada audição a garantia de que um novo acervo instrumental foi escondido pelo cantor e consequentemente desvendado pelo público. Assim, o recolhimento que tanto alimenta a estética tímida da obra, aos poucos se revela como um cenário imenso, um panorama tão particular que parece simplesmente crescer e morrer dentro dos próprios limites da obra.

 

Mutual Benefit

Love’s Crushing Diamond (2013, Soft Eyes)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Sufjan Stevens, Fleet Foxes e Bon Iver
Ouça: Advanced Falconry, That Light That’s Blinding e Strong Swimmer