"LP1 "

Ano: 2014
Selo: Young Turks
Gênero: R&B, Eletrônica
Para quem gosta de: Arca, Kelela
Ouça: Two Weeks, Numbers
Nota: 8.5

Disco: “LP1”, FKA Twigs

A natureza instável dos arranjos e conceitos estéticos é a base do universo autoral de Tahliah Barnett. Da eletrônica serena em Breath, quando ainda se apresentava como Twigs, passando pelo R&B perturbador de Water Me e Papi Pacify, já como FKA Twigs, cada traço de ambientação segura, instalada em uma possível zona de conforto, logo é arremessado para um plano de inevitável experimento. Contudo, em um efeito contrário ao da própria estranheza, em LP1 (2014, Young Turks) Barnett aposta em um trabalho sutil, pervertendo a natural “complexidade” dos primeiros inventos em busca de um parcial refúgio no pop.

Basta um regresso à coleção de batidas quebradas, loops e vídeos desconfortáveis de EP2, lançado há poucos meses, para perceber o novo sentido encontrado pela cantora. Enquanto o sombrio exemplar de quatro faixas minimizava a atuação de Barnett, acomodando vozes e sons em um casulo hermético de referências, hoje músicas como Numbers e Give Up posicionam a jovem inglesa em um ambiente de evidente destaque – bem representado no clipe de Nabil Elderkin para Two Weeks.

Mesmo de forma controlada, LP1 é um trabalho pensado para apresentar a sonoridade antes restrita de FKA Twigs para “as massas”. Precisamente autêntica e longe da abandonar a sonoridade autoral tecida nos últimos anos – algo comum em discos comandadas por um selo de grande ou médio porte -, Barnett encontra no aspecto acessível da própria obra um cenário ainda mais abrangente e agora abastecido por novas possibilidades. Não por acaso o disco conta com a produção dividida entre o “comercial” Paul Epworth (Adele, Coldplay) e os “alternativos” Arca, Sampha e Dev Hynes, colaboradores responsáveis pelo equilíbrio da obra.

Ao mesmo tempo em que invade o território de Beyoncé e outras cantoras em atuação, Twigs não demora a mergulhar no ambiente torto criado e solucionado apenas por ela. Por mais acessível que seja o detalhamento dado ao conteúdo do registro, faixas como Pendulum, Kicks e Lights On logo aparecem para torcer a mente do espectador. São músicas abastecidas por ruídos e bases distantes de qualquer apelo “pop”; composições planejadas para reforçar a marca excêntrica de Barnett. Mesmo a arte do disco – assinada pelo velho colaborador Jesse Kanda – parecer servir de “aviso” sobre o estranho conteúdo das faixas.

Talvez contestado por quem foi seduzido pelo som “difícil” de Twigs, o foco em um som pouco restritivo logo revela uma série de fatores inéditos dentro do trabalho da cantora. A julgar pelos versos tristes (e suspiros) dissolvidos em cada faixa, LP1 é um disco que manifesta a total intimidade de sua autora. Pela primeira vez Barnett rompe com o caráter “robótico” de Water Me e demais canções lançadas em EP1. Trata-se de um álbum doloroso, humano, uma representação honesta das experiências antes expressas de forma “confusa” nos primeiros registros da produtora.

É justamente essa exposição lançada em Two Weeks (“I know it hurts You know/ I’d put you first“), Numbers (“Was I just a number to you?“) e demais tramas confessionais que concedem um espaço no disputado terreno agora percorrido por Twigs. Como James Blake em Overgrown (2013) ou Tom Krell no recente “What Is This Heart?” (2014), Barnett deixa de lado uma série de conceitos experimentais não apenas para “vender mais” ou “abocanhar uma parcela maior público”, mas para testar com naturalidade e expressivo acerto os limites da própria obra.

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